Santo Agostinho: O ensino da religião

O ensino da religião


Santo Agostinho, interrogado por um diácono da igreja de Cartago sobre o melhor modo de ensinar a Religião, lhe respondeu por seu admirável tratado: De catechizandis rudibus[1].
"O verdadeiro modo de ensinar a Religião, diz o grande bispo de Hipona, é de remontar a estas palavras: No princípio Deus criou o céu e a terra, e de desenvolver toda a história do Cristianismo até nossos dias. Não que devemos relatar de um extremo ao outro tudo o que está escrito no Antigo e no Novo Testamento: isso não é nem possível nem necessário. Faças um resumo: insistas mais sobre o que lhe parece mais importante, e passe ligeiramente sobre todo o resto. Deste modo, não cansareis aquele em quem queres excitar o ardor pelo estudo da religião, e não sobrecarregareis a memória daquele que deveis instruir. 
Ora, para mostrar toda a sequência da religião, lembre-se de que o Antigo Testamento é a imagem do Novo; que toda a religião mosaica, os Patriarcas, suas vidas, suas alianças, seus sacrifícios, são igualmente imagens do que vemos; que o povo judeu inteiro e seu governo são apenas um grande profeta de Jesus Cristo e da Igreja[2]".
Tal deve ser, segundo Santo Agostinho, o ensino da letra da Religião. Quanto ao espírito, o santo doutor, interprete fiel do Mestre divino, o apresenta no amor de Deus e do próximo. Eis suas palavras notáveis:
"Começareis, portanto, vossa narração pela criação de todas as coisas em um estado de perfeição, e a continuareis até os tempos atuais da Igreja. Vossa única finalidade será de mostrar que tudo o que precede a Encarnação do Verbo tende a manifestar o amor de Deus no cumprimento desse mistério. O próprio Cristo imolado por nós, o que ele nos ensina, senão o amor imenso que Deus nos tem testemunhado ao nos dar seu próprio Filho?!
Mas se, de uma parte, o fim principal que o Verbo se propôs ao vir sobre a terra foi de ensinar ao homem quanto ele é amado por Deus, e se este conhecimento em si não tem outra finalidade senão de acender no coração do homem o amor de um Deus que o amou por primeiro, e amor do próximo do qual este mesmo Deus veio dar o preceito e o exemplo; se, de outra parte, toda a Escritura anterior a Jesus Cristo tem por finalidade anunciar seu advento, e se toda aquela que lhe é posterior fala apenas do Cristo e da Caridade, não é evidente que não somente a Lei e os Profetas, mas ainda todo o Novo Testamento, se reduzem a estes dois grandes preceitos: amor de Deus e o amor do próximo?
Dareis conta, portanto, de tudo o que relatareis; explicareis a causa e o fim de todos os acontecimentos pelo amor, de modo que esta grande ideia esteja sempre diante dos olhos, do espírito e do coração. Este duplo amor de Deus e do próximo sendo o termo no qual se relaciona tudo o que tendes a dizer, conte tudo o que conte, de modo que vossa narração conduza vosso auditor à fé, da fé à esperança, da esperança à caridade[3]".
Tal é o plano que temos tentado realizar. Poderíamos escolher um plano melhor? A juventude do século 19 se perderá se lhe dermos por catequista Santo Agostinho? Assim a exposição da Religião desde o princípio do mundo até nossos dias, a Religião antes, durante e depois da pregação de Jesus Cristo, eis o objeto desta obra.


[1] Modo de ensinar a religião aos ignorantes. 
[2] Cap. III, n 5 e seq..
[3] Aug, Catechiz. rud..

Abbé J. Gaume. Catéchisme de Persévérance. 5ª ed., Gaume Frères, Paris, 1845, t.I.
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