«Quem não receber o Reino de Deus como um pequenino não entrará nele»

Cardeal Joseph Ratzinger
Retiro pregado no Vaticano em 1983


É surpreendente constatar a importância que o próprio Jesus atribui à criança, para todo o homem: «Em verdade vos digo: quem não receber o Reino de Deus como um pequenino não entrará nele» (Mt 18,3). Portanto, para Jesus, ser criança não é uma etapa puramente transitória da vida do homem, devida ao seu destino biológico, e que, por isso, deva desaparecer totalmente. Na infância, o que é próprio do homem realiza-se de tal maneira que quem perdeu o essencial da infância está, por sua vez, perdido.

A partir daí, e posicionando-nos no ponto de vista humano, podemos imaginar que lembranças felizes guardaria Cristo dos dias da Sua infância, o quanto a infância continuava a ser, para Ele, uma experiência preciosa, uma forma particularmente pura de humanidade. Daí poderemos aprender a reverenciar a criança que, desarmada, assim apela ao nosso amor.

Mas isso coloca-nos sobretudo a seguinte questão: qual é exatamente o traço característico da infância que Jesus considera insubstituível? [...] É necessário desde logo recordar que o atributo essencial de Jesus, aquele que exprime a Sua dignidade, é o facto de ser «Filho». [...] A orientação da Sua vida, o motivo e o objectivo que lhe deram forma exprimem-se numa única palavra: «Abba, Pai» (Mc 14,36; Ga 4,6). Jesus sabia que nunca estava só, e até ao último grito na cruz obedeceu Àquele a Quem chamava Pai, inclinando-Se inteiramente para Ele. Basta isto para nos permitir explicar que Ele, por fim, Se tenha recusado a chamar-Se rei ou senhor ou a atribuir-Se qualquer outro título de poder, mas tenha recorrido a um termo que poderíamos também traduzir por «criancinha».
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