Homilia: III Domingo de Páscoa - Ano B

São Gregório de Nissa
Tratado sobre o perfeito modelo de cristão
“A vontade de Cristo, norma de nossa vida”

Quando nos é ensinado que Cristo é a redenção e que para redimir-nos entregou-se a si mesmo como pagamento, ao mesmo tempo confessamos que, ao construir-se em pagamento de cada uma das almas e nos concedendo a imortalidade, nos converteu – a nós que fomos comprados por ele dando vida por morte – em sua própria posse. Contudo, se somos propriedade daquele que nos redimiu, sigamos ao Senhor de forma incondicional, de forma que já não vivamos para nós, mas para aquele que nos comprou custando a sua vida: pois já não somos donos de nós mesmos; nosso Senhor é aquele que nos comprou e nós estamos submetidos ao seu domínio. Em consequência, sua vontade deve ser a norma de nosso viver.
E assim como quando a morte nos oprimia com tirânica dominação, a lei do pecado determinava tudo em nós, assim, agora que estamos destinados à vida, é lógico que a vontade do Todo-poderoso nos governe, e não queira que, renunciando pelo pecado a vontade de viver, caiamos novamente por própria decisão sob a ímpia dominação do pecado.
Esta reflexão nos unirá mais intimamente ao Senhor, sobretudo se escutássemos a Paulo chamar-lhe algumas vezes de “Páscoa”, outras vezes de “sacerdote”: porque Cristo se imolou por nós como verdadeira Páscoa, e, no atributo de sacerdote, o próprio Cristo se ofereceu a Deus em sacrifício. Entregou-se, diz, por nós como oblação e vítima de suave odor, o que é uma lição para nós. Pois quem vê que Cristo entregou-se a Deus como oblação e vítima e converteu-se em nossa Páscoa, ele mesmo apresenta seu corpo a Deus como hóstia viva, santa, agradável, feito um culto aceitável. A maneira de realizar o sacrifício é: não acomodar-se a este mundo, mas transformar-se pela renovação da maneira de pensar, para discernir o que é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada, o que é perfeito.
De fato, a vontade amorosa de Deus não pode manifestar-se na carne não sacrificada pela lei do espírito, já que a tendência da carne é rebelar-se contra Deus, e não se submete à lei de Deus. Disto se segue que, se antes não se oferece a carne – mortificado tudo o que nela é terreno e com o que concorda com o apetite – como hóstia viva, não se pode consumar sem dificuldade na vida dos crentes a agradável e perfeita vontade de Deus. Da mesma forma, a simples consideração de que Cristo erigiu-se em nossa propiciação a partir de seu sangue, nos induz a constituir-nos em nossa própria propiciação e, mortificando os nossos membros, conseguir a imortalidade de nossas almas.
E quando se diz que Cristo é o reflexo da glória de Deus e imagem de seu ser, a expressão nos sugere a ideia de sua adorável majestade. Com efeito Paulo, inspirado pelo Espírito de Deus e instruído diretamente por Deus, que no abismo de generosidade, de sabedoria e conhecimento de Deus tinha rastreado o arcano e recôndito dos mistérios divinos; e, sentindo-se incapaz de expressar na linguagem humana a claridade daquelas coisas que estão além de toda indignação ou investigação, e que, no entanto, lhe foram divinamente reveladas, para que os ouvidos dos seus ouvintes pudessem captar a inteligência que ele tinha do mistério, faz uso de algumas aproximações, falando na medida em que suas palavras eram capazes de verter seu pensamento.


Fonte: Lecionário Patrístico Dominical, pp. 348-349.
Homilia: III Domingo de Páscoa - Ano B Homilia: III Domingo de Páscoa - Ano B Reviewed by Francisco Nascimento on 02:11 Rating: 5

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