Homilia: Missa da Ceia do Senhor

Santo Agostinho
Sermão 228
“Desde o nascer até o pôr do sol se oferece a Deus o sacrifício puro”

O dever de pregar-vos um sermão, e a solicitude graças à qual vos iluminamos para que Cristo se forme em vós, obriga-me a advertir a vossa infância: a vós os que, renascidos agora da água e do Espírito, contemplais com nova luz o alimento e a bebida postos sobre esta mesa do Senhor, e os recebeis com novo fervor, que significa este sacramento tão grande e divino, este remédio tão célebre e tão nobre, este sacrifício tão puro e tão acessível. Sacrifício que agora não se imola já em uma só cidade, a Jerusalém terrena, nem naquela tenda construída por Moisés, nem no templo construído por Salomão: tudo isso são coisas que foram sombra do futuro; mas agora desde o nascer até o pôr do sol, como foi predito pelos profetas.
Nele se oferece a Deus uma vítima de louvor apropriada à graça do Novo Testamento. Já não se buscam vítimas cruentas nos rebanhos de ovelhas, já não se apresentam ante o altar de Deus nem cordeiros nem cabritos, pois o sacrifício de nosso tempo é o corpo e o sangue do próprio sacerdote. Os salmos o haviam predito muito tempo atrás: Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec. No Gênesis lemos, e assim o cremos, que Melquisedec, sacerdote do Deus sublime, ofereceu pão e vinho quando bendisse a Abraão, nosso pai.
Assim, Cristo nosso Senhor, que em sua paixão ofereceu por nós o que tinha assumido de nós em seu nascimento, constituído príncipe dos sacerdotes para sempre, ordenou que se oferecesse o sacrifício que estais vendo, o de seu corpo e sangue. Na verdade, de seu corpo, ferido pela lança, brotou sangue e água, mediante o qual apagou os pecados do mundo. Recordando esta graça, ao tornar realidade a libertação de vossos pecados, visto que é Deus quem a realiza em vós, acercai-vos com temor e tremor ao participar deste altar.
Reconhecei no pão aquele que suspendeu do madeiro, e no cálice aquilo que manou de seu lado. Em sua multíplice variedade, aqueles antigos sacrifícios do povo de Deus figuravam este único sacrifício futuro. Cristo mesmo é, ao mesmo tempo, cordeiro de inocência e singeleza de sua alma, e cabrito por sua carne, semelhante à carne de pecado. Tudo o que de antemão foi anunciado, em muitas e variadas formas nos sacrifícios do Antigo Testamento se referem a este único sacrifício que revelou o Novo Testamento.
Recebei, pois, e comei o corpo de Cristo, já transformados vós mesmos em membros de Cristo, no corpo de Cristo; recebei e bebei o sangue de Cristo. Não vos desvinculeis, comei o vínculo que vos une; não vos estimeis pouco, bebei vosso preço. Da maneira que se transforma em vós qualquer coisa que comeis ou bebeis, transformai-vos também vós no corpo de Cristo, vivendo em atitude obediente e piedosa.
Quando se aproximava já o momento de sua paixão e estava celebrando a páscoa com seus discípulos, ele abençoou o pão que tinha em suas mãos e disse: Isto é meu corpo, que será entregue por vós. Igualmente, lhes deu o cálice abençoado, dizendo: Esta é a nova aliança em meu sangue, que será derramado por muitos para o perdão dos pecados. Estas coisas podeis lê-las no Evangelho ou as escutais, porém ignoráveis que esta Eucaristia era o Filho; agora, por outro lado, aspergido vosso coração com a consciência limpa e lavado vosso corpo com a água pura, acercai-vos a ele, e sereis iluminados e vossas faces não se envergonharão.
Se recebeis santamente este sacramento que pertence ao Novo Testamento e vos dá motivo para esperar a herança eterna; se guardais o mandamento novo de amar-vos uns aos outros, tereis vida em vós, pois recebereis aquela carne da qual a própria Vida disse: O pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo; e, Quem come minha carne e bebe meu sangue terá a vida eterna.


Fonte: Lecionário Patrístico Dominical, pp. 329-330.
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