A SÁBIA «INUTILIDADE» DA LITURGIA


A prioridade, para o homem que é crente, é olhar para o mundo a partir de Deus. Mas é inevitável, para o crente que não deixa de ser homem, olhar também para Deus a partir do mundo. É verdade que, estando no mundo, não somos do mundo. Mas seremos indiferentes ao facto de, não sendo do mundo, estarmos no mundo? Num tempo em que tudo se avalia por apertados critérios de utilidade, são muitos os que não reconhecem à Liturgia qualquer fim «útil».

É sabido que os nossos padrões de utilidade levam-nos a avaliar uma coisa em função de outra coisa. Por exemplo, o trabalho é útil porque dele nos vem a subsistência, a progressão na carreira e a realização pessoal. A esta luz, não admira que o homem contemporâneo tenha um problema com a Liturgia. É que esta, como notou Romano Guardini, «não conhece um fim “útil”». A razão de ser da Liturgia «é Deus e não o homem». Nela, «o homem concentra o olhar, não em si, mas em Deus».

Assim sendo, não basta executar o rito para viver a Liturgia. Antes do rito — e acima do rito — está o Espírito. Só quando entrarmos no espírito da Liturgia, entraremos também na compreensão — e na vivência — da sua ritualidade. Nessa altura, veremos que a Liturgia não é «um caminho para um fim situado fora dela». Pelo contrário, ela desponta como «um mundo de vida que se apoia sobre si mesmo». Daí que o sentido prevaleça sobre a utilidade. O sentido da Liturgia «consiste em estar diante de Deus».

Está aqui, aliás, o supremo horizonte da existência, verbalizado há séculos por Santo Ireneu de Lyon: «A vida do homem é a “visão” de Deus». É fundamental, por conseguinte, que, na Liturgia, nos habituemos a valorizar o seu sentido e não a sondar a sua utilidade. Será mesmo urgente que — usando a linguagem (saudavelmente) provocadora de Guardini — nos fixemos na «sublime “inutilidade”» da Liturgia. Só esta «sublime “inutilidade”» nos permitirá perceber que «a vida não tem outro fim senão estar na presença de Deus». Enfim, temos muito que mudar.
É por isso que as transformações que tem havido na Liturgia pretendem apenas — e sempre — que nos deixemos transformar pela Liturgia. Pelo Deus que nos visita na Liturgia!


Frei Francisco Bezerra do Nascimento, OFMConv.

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