«Non finito», pintura do Infinito

Vou transcrever extensos parágrafos de Maria Zarco sobre um quadro de Leonardo da Vinci [1], que vem a propósito deste Natal de 2017. O quadro, que tinha sido levado em 2011 para restauro, voltou agora a casa, na «Galleria degli Uffizi», em Florença. Uma entrada espectacular por uma janela alta do edifício, à uma da manhã, com escolta de «carabinieri», suspenso de um guindaste, à luz dos holofotes. É que o quadro mede 6 m2 e está pintado sobre grossas pranchas de madeira. É grande e pesa muito.

Tudo começou, corria o ano de 1481. Leonardo já era famoso quando recebeu, com 29 anos, esta encomenda do convento de San Donato. A grande superfície de madeira esperava o pincel, para se transformar num presépio com a adoração dos Magos. Foi preciso trabalhar longamente, porque os pintores têm muito que fazer antes de acometer a obra propriamente dita. Os quadros nascem nos bosquejos que se sucedem, experimentando a composição, os planos, as feições. É assim que, aos poucos, a obra ganha vida e amadurece, até à forma definitiva.

Passados 200 anos, o retábulo mudou-se para a «Galleria degli Uffizi», aonde agora voltou, depois de 6 anos de restauro, muito mais colorido e com algumas figuras secundárias que se tinham apagado com o tempo.

O interessante é recuar 536 anos, àqueles dois anos intensos que Leonardo gastou a pintar o quadro. A peça tem um impacto notável e parte desse efeito vem de que Leonardo levou ao extremo a estética do «non finito», do «não acabado». Em vez do retoque minucioso, preferiu sublinhar o essencial e, sobretudo, não dar a ilusão (talvez pretensiosa) da completude. A beleza e o equilíbrio da cena estão lá, mas concentradas na mensagem principal.

A criatividade fervilhante do pintor rompeu com as convenções artísticas, facilitando a coabitação de vários cenários, diferenciados pela ordenação em perspectiva, que era ainda um expediente invulgar. Este domínio exímio da profundidade permitiu hierarquizar as cenas em graus de distância. O recurso a sombreados e claridades acentuou esse efeito de perspectiva, alongando a vista até lonjuras então inimagináveis. E, tudo isto, com a aplicação exponenciada do «non finito».

O pintor encontrou uma nova posição para a Mãe e o Filho, ao centrá-los no primeiro plano, em vez da localização tradicional, numa das laterais, que desenrolava a cena bíblica em linha horizontal, a fluir de um lado ao outro. Neste quadro, o presépio passa para o epicentro de uma narrativa que se desenvolve na profundidade (em vez de em fila transversal), abarcando um espaço maior, em que se sobrepõem episódios de épocas diferentes. Leonardo coloca o presépio no contexto da história da humanidade, no vértice do tempo.
Qual é esta luz potente que se projecta sobre a história dos homens?

O retábulo organiza-se em torno da harmonia, do enlevo de uma jovem Mãe com o seu Menino. O traço subtil e aparentemente inacabado coloca a ternura divina no centro. O gesto espontâneo do Pequenino, maravilhado com a sumptuosidade dos presentes dos Magos, contrasta com o aparato do mundo, porque o trono não pertence a esses reis. O trono é Maria. A sobriedade vence a riqueza, a Mãe vale mais que os cofres cheios.

Os Magos em adoração rodeiam Maria e Jesus, no meio de um corrupio de acompanhantes (dizem que um jovem no lado direito seria o próprio Leonardo). Num plano mais recuado, sobre a esquerda, assomam as ruínas de um templo romano pagão. Ao mesmo nível, sobre a direita, um par de cavaleiros digladia-se ferozmente. Mais ao fundo, surge uma paisagem rochosa e desértica. Tudo isto, e outros pormenores, representa o mundo afastado de Cristo, longe da doçura da Mãe.
Árvores carregadas de simbolismo marcam presença em pontos significativos. Palmeiras, símbolo de vitória, imagem do Cântico dos Cânticos que a liturgia aplica a Nossa Senhora (Ct. 7, 7), símbolo também da palma do martírio, emergem, plantadas sobre as ruínas: triunfam pacificamente sobre a morte e a Roma imperial, ali representadas pela violência sanguinária e pelo esboroar dos monumentos pagãos. A segunda árvore, ao meio, é uma alfarrobeira, cujas sementes eram utilizadas na pesagem de pedras e metais preciosos. Está ali como testemunha silenciosa, a proclamar Cristo Rei do Universo e Maria Rainha dos Céus e da Terra.

O costume era pintar com régua e minúcia, Leonardo teve o arrojo deste traço vibrante, num estilo que ficou conhecido como «non finito», não «acabadinho». Maria Zarco classifica o resultado como inexcedível. Concordo.

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