NATAL SEM ADVENTO?

Não correm fagueiros os tempos para a moderação. Os dias que vivemos estão cercados de desmesuras e dominados por excessos. Mergulhados em demasias, não somos capazes de nos conter e temos uma crescente dificuldade em esperar. O ruído e a pressa vão-nos retirando disponibilidade para contemplar a beleza de cada momento e o sentido de cada instante.

Nem o Natal se demarca deste frenesim. A sofreguidão dos festejos de Natal tem vindo praticamente a obscurecer o significado do Advento. Mal finda o Verão e os sinais de Natal já cá estão. Mas que Natal será este, antes do Advento e sem Advento? É o Natal «das» famílias, o Natal «dos» colegas, o Natal «das» promoções, o Natal «do» consumo, o Natal «das» prendas, o Natal «das» festas, o Natal «dos» almoços e jantares, etc. Ou seja, em vez «do» Natal, há «Natais».

E até nós, cristãos, acabamos por embarcar na corrente. Afinal, estamos «no» mundo e, por vezes, escapa-nos que não somos «do» mundo (cf. Jo 15, 19). É certo que não nos costumamos esquecer de celebrar o Natal de Jesus. Mas será que nos lembramos de preparar sempre o Natal com Jesus? Há muitas antecipações do Natal e pouca preparação para o Natal. Ainda falta perceber que o Advento não existe para antecipar o Natal, mas para preparar o Natal.

O Advento não é, obviamente, ausência de alegria. Mas é o Natal que desponta como plenitude da alegria. Daí que, na sua sábia pedagogia de mãe, a Igreja nos peça para não antecipar no Advento a «alegria plena» do Natal.

É por isso, aliás, que, no Advento, não se canta o «Glória». Os instrumentos musicais usam-se com maior sobriedade e os ornamentos florais são menos vistosos. A preparação do Natal não devia ser feita só pelo estômago nem aos pulos. Não é com «festivais de comida» nem com espetáculos sem fim que nos preparamos para o nascimento de Jesus. Porque não agendar as realizações mais festivas para depois da noite de 24 de Dezembro?

Até lá, era bom que pairasse algum silêncio para podermos ouvir o grande silêncio de Belém. Não abafemos, com as nossas palavras, a única palavra que Deus pronunciou: o Seu Verbo, o Seu Filho. É com essa única Palavra que Deus tudo faz e refaz. É com essa única Palavra que Deus nos enche de paz!


Frei Francisco Bezerra do Nascimento, OFMConv.

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