POR UMA ESPIRITUALIDADE «DE SAÍDA»

Diz a experiência que um problema que não está bem colocado é um problema que dificilmente será bem resolvido. E o certo é que o problema da espiritualidade começa, muitas vezes, na sua colocação. Acostumados a multiplicar «espiritualidades», a tendência é para nos centrarmos (quase exclusivamente) na «nossa». Acontece que a espiritualidade não é o que nos centra; é o que (mais) nos descentra.

Neste sentido, convirá prevenir que a espiritualidade é muito diferente de um método de concentração ou de uma técnica de relaxamento. Daí que, também na espiritualidade, seja necessário optar por uma atitude «de saída», tão recomendada pelo Papa Francisco. Como chegar, então, a uma espiritualidade «de saída»?

Desde logo, há que superar uma abordagem excessivamente «humanocentrada» da espiritualidade. É óbvio que não devemos esquecer a espiritualidade como dimensão do humano. Mas é fundamental que saibamos priorizar a espiritualidade como presença do divino. Nunca é demais insistir, embora pareça um truísmo afirmar. Espiritualidade vem de Espírito.

Aliás, o próprio Cristo apresenta-Se no mundo como portador do Espírito (cf. Lc 4, 18). Pelo que estar com Cristo é estar com o Espírito. Assim sendo, todos perceberão que o característico da espiritualidade cristã é aderir à pessoa de Cristo.

E qual será o específico da espiritualidade do padre? O específico da espiritualidade do padre é ser chamado a agir na pessoa de Cristo. É que, para alguém aderir a Cristo, é indispensável agir, junto dele, em nome de Cristo. Em cada dia (e maximamente na Eucaristia), o padre é aquele que deposita nas nossas mãos a presença total — divina e humana — de Jesus Cristo.

Daqui resulta que, se ser cristão é acolher Cristo na vida, ser padre é reproduzir a vida de Cristo. Enquanto «reprodutor» de Cristo Pastor, o padre não se pertence: pertence a Cristo e àqueles a quem leva Cristo. Ser padre não é possuir, é ser «possuído». O padre é um «alienado», um feliz «alienado». Tudo nele está «expropriado».

Sendo tão abrangente — e tão englobante —, a espiritualidade não pode ser um setor, como se houvesse algo que não fosse espiritual. Tudo é espiritual no padre. É no Espírito que ele está sempre «em saída». É no Espírito que ele realiza sempre encontro: com o Pai (na oração) e com os irmãos (na missão)!



Frei Francisco Bezerra do Nascimento, OFMConv.

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