EXORTAÇÃO DE SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO SOBRE O PECADO NO SACERDOTE

Redobremos de esforços, ó padres, irmãos meus, e tremamos! Não aconteça que todas as nossas grandezas, todas as honras a que Deus nos alteou, entre todos os homens, venham a terminar um dia na nossa condenação eterna! Diz S. Bernardo que o empenho com que os demônios trabalham na nossa ruína, deve excitar o nosso zelo, em assegurarmos a salvação. Ó, como esses inimigos terríveis porfiam em perder um padre! Ambicionam com mais ardor a perda dum padre, que a de cem seculares, não só porque a vitória alcançada sobre um padre é para eles um triunfo mais brilhante, mas porque um padre na sua queda arrasta muitos outros desgraçados para o abismo. Assim como as moscas se afastam dum vaso que contenha algum líquido a ferver, e procuram outro de licor tépico, assim os demônios se mostram menos pressurosos em assaltar os sacerdotes fervorosos, que em impelir os tíbios do estado de tibieza para o de pecado. Diz Cornélio A-Lápide que o tíbio, desde que seja atacado por alguma tentação grave, está em grande perigo de sucumbir, porque se encontra quase sem força para lhe resistir; e assim, no meio de tantas ocasiões em que se encontra, caí muitas vezes em faltas graves.


É preciso pois que o sacerdote se aplique a evitar os pecados que comete cientemente e de propósito deliberado. Além de Jesus Cristo, que por natureza e sua divina Mãe por um privilégio especial, foram puros de toda a mancha de pecado, é certo que de todos os homens, sem exceptuar os santos, nenhum foi isento de pecados ao menos veniais. Nem os céus são puros na sua presença. Todos pecamos em muitas coisas. Como diz pois S. Leão, para todos os filhos de Adão, é uma triste herança o serem manchados do pó da terra. Acima de tudo porém, é necessário prestar atenção a esta palavra do Sábio: O justo cairá sete vezes e se levantará. O que cai por fragilidade, sem pleno conhecimento do mal que faz, e sem consentimento deliberado, levanta-se com facilidade. Se, ao contrário, o pecador conhece o mal e o pratica deliberadamente e, em vez de o detestar, se compraz nele, como poderá levantar-se?


Diz Santo Agostinho: Se escorregamos em algumas faltas, ao menos detestemo-las e confessemo-las, e Deus no-las perdoará: Se confessarmos os nossos pecados, Deus, que é fiel e justo no-los perdoará, e nos purificará de toda a iniquidade. Falando dos pecados veniais, Luís de Blois ensina com Tauler que basta, para obter o perdão deles, confessá-los ao menos em geral. E noutro lugar diz que se apagam mais facilmente tais pecados, voltando-se para Deus com um sentimento de humildade e amor, do que passando muito tempo a pesá-los com excessivo temor. Lê-se igualmente em S. Francisco de Sales que as faltas ordinárias das pessoas piedosas, como as cometem indeliberadamente, também se apagam indeliberadamente. No mesmo sentido se exprime Sto. Tomás, quando diz que, para a remissão dos pecados veniais, basta um ato de detestação, implícito ou explícito, como o que uma pessoa faz, voltando-se para Deus com devoção e amor. E acrescenta: Os pecados veniais remitem-se de três modos: 1.º pela infusão da graça, e é o que acontece, quando se recebe a Eucaristia, ou outro sacramento; 2.º por certos atos acompanhados de algum movimento de arrependimento, como são a confissão geral, o ato de tocar no peito, e a oração dominical; 3.º por atos acompanhados dum certo movimento de reverência para com Deus e as coisas divinas; e é assim que a benção do bispo, a aspersão da água benta, a oração numa igreja consagrada, e outras coisas deste gênero, produzem a remissão dos pecados veniais. S. Bernardino de Sena, falando especialmente da comunhão, diz: Pode acontecer que, pela recepção da Eucaristia, uma alma se una tão estreitamente a Deus que fique purificada de todos os seus pecados veniais. O venerável Luís du Pont dizia: “Tenho cometido muitas faltas, mas nunca fiz a paz com as minhas faltas”. Há muitos que fazem as pazes com os seus defeitos, e é o que há de causar a sua perda. Segundo S. Bernardo, enquanto se detestam as próprias imperfeições, dá se esperança de regressar ao bom caminho; mas, deste que se peca ciente e deliberadamente, sem temor de pecar e sem dor de haver pecado, pouco a pouco se cai na perdição. As moscas que morrem no bálsamo fazem-lhe perder a suavidade do odor, diz o Sábio. Essas moscas são precisamente as faltas que se cometem e não se detestam; porque então permanecem como mortas na alma: é a explicação de Dionísio Chartreux. Quando uma mosca cai num perfume, diz ele, e lá permanece, estraga-o e anula-lhe o bom odor. No sentido espiritual, essas moscas que morrem em nós são os pensamentos vãos, as afeições mais ou menos culposas, as distrações não combalidas: tudo isso nos rouba a doçura dos exercícios espirituais. Nota S. Bernardo que não há grande mal em dizer que tal coisa é um pecado venial; mas cometer esse pecado, acrescenta, e comprazer-se nele, é um mal que tem conseqüências graves, e Deus há de punir severamente, como está escrito em S. Lucas: Aquele que conheceu a vontade do seu senhor, e não fez os preparativos necessários para o seu regresso, e não cumpriu a sua vontade, receberá grande número de açoites; o que porém o não conheceu, e fez coisas dignas de castigo, receberá poucos açoites. É verdade que nem mesmo as pessoas espirituais são isentas de pecados veniais; mas, diz o Pe. Alvarez de Paz, cada dia diminuem elas o número e a gravidade, e depois apagam a mancha por atos de amor de Deus. Quem assim procede acabará por se santificar, e as suas faltas não o impedirão de tender para a perfeição. Por isso Luís de Blois nos exorta a não nos desanimarmos com essas pequenas faltas, pois que temos muitos meios para nos corrigirmos delas. Mas quem ainda está preso à terra por algum laço, quem cai e recai nelas voluntariamente, sem desejar levantar-se, como poderá adiantar no caminho de Deus? Quando a ave está solta de todas as prisões, logo levanta o seu vôo; mas, se estivesse presa, embora por um fio delgado, permaneceria retida. O menor laço que prenda a alma à terra, dizia S. João da Cruz, impede-a de adiantar na perfeição. Guardemo-nos pois de cair no miserável estado da tibieza; porque, à face do que fica dito, para arrancar dele um padre, é necessária uma graça

potentíssima. E que fundamento temos nós para pensar que o Senhor concederá uma tal graça a quem lhe provoca náuseas? — Alguém dirá que já se encontra nesse estado; — e não lhe restará esperança? — Há ainda uma esperança: a misericórdia e o poder de Deus, — As coisas impossíveis aos homens são possíveis para Deus. É impossível ao tíbio arrancar-se da tibieza, mas não é impossível a Deus tirá-lo dela. É preciso contudo que ele ao menos o deseje: se nem mesmo deseja levantar-se, como poderá esperar o socorro de Deus? Ainda assim, o que não tem esse desejo, ao menos peça ao Senhor que lho dê. Se lho pedir com perseverança, Deus lhe dará o desejo e o socorro de que necessita. A promessa de Deus não falta. Oremos pois e digamos com Sto. Agostinho: Senhor, nenhuns merecimentos tenho a oferecer-vos para ser atendido por vós; mas, ó Padre eterno, a vossa misericórdia e os merecimentos de Jesus Cristo, são os meus méritos. — É também um grande meio para sair da tibieza, recorrer à santíssima Virgem.

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