Crime? Ser cristão

A perseguição aos cristãos não é conjugável apenas no pretérito perfeito. Podemos e devemos usar o presente do indicativo ou mesmo o gerúndio: está acontecendo agora em África, Médio Oriente e Ásia; está acontecendo agora debaixo do mais absoluto silêncio da indústria das indignações; há todos os dias indignações para todos os gostos e muitas até são imaginárias, mas ninguém parece muito interessado na maior perseguição do nosso tempo, a perseguição sofrida pelos cristãos ao longo de todo o espaço do mundo muçulmano, desde o médio oriente até à Ásia do sul. Por exemplo, o governador de Jakarta (Basuki Tjahaja Purnama, conhecida por Ahok) foi preso porque é cristão. O seu crime, aos olhos do crescente islamismo indonésio, é só esse: o seu cristianismo é uma blasfémia. Repare-se que não estamos a falar de uma aldeia remota do Paquistão, mas da capital da maior democracia muçulmana.

O contraste não podia ser maior. Nós elegemos políticos muçulmanos para cargos importantes (presidentes de câmara de cidades importantes, de Londres a Roterdão). Nós acolhemos milhões de refugiados muçulmanos. Nós vivemos debaixo de uma cultura (politicamente correto) que impede qualquer tipo de crítica à cultura muçulmana, mesmo quando essa cultura é abertamente machista e homofóbica. Ao mesmo tempo, os cristãos são perseguidos ao longo do arco muçulmano, do Médio Oriente até países outrora moderados como a Indonésia, que está a deixar de ser aquele bastião de “islão moderado”. Aliás, a radicalização islamita na Indonésia é mais um caso que nos leva ao desespero. É cada vez mais difícil fugir à grelha do choque de civilizações. Onde está afinal o islão moderado? Onde? A Indonésia mostra – pela enésima vez – que as populações muçulmanas só conseguem viver debaixo de dois regimes autoritários: ou um secularismo autoritário que seca o islamismo à força, ou um totalitarismo religioso.

Seja como for, os cristãos estão a ser expulsos das terras onde sempre viveram. Foi assim no Médio Oriente nos últimos anos. Os cristãos foram expulsos das primeiras comunidades cristãs da história, comunidades com uma história e uma presença ininterrupta na região desde o tempo de Cristo. E esta política está a ser seguida por outros meios noutros locais. Sim, uma política de “lebensraum” islamita está a ser imposta ao longo do arco muçulmano. Os cristãos estão a ser expulsos deste espaço vital muçulmano através de táticas “fascistas” (invasões, mutilações, prisões), mas a sociedade ocidental está calada. Chega a ser patético, quase risível: é como se o cristão fosse o único que não tivesse direito a ser uma “vítima” nesta cultura da “vitimização” que procura “vítimas” todos os dias para a alimentar a necessidade de indignações.

Henrique Raposos Expresso diário de 11.11.2017
(seleção de imagem 'Spe Deus')

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