CORAÇÕES (não telemóveis) AO ALTO!

O volume de mudanças na nossa época leva não poucos a perguntar: estaremos numa época de mudanças ou no limiar de uma mudança de época? A pergunta não é retórica. De há uns tempos para cá, tem crescido a percepção de que já não estamos onde estivemos sem que saibamos muito bem onde nos encontramos. Nem para onde vamos. Daí a tendência para tipificar a nossa época como uma espécie de «época póstica».

Se repararmos, as caracterizações epocais são, geralmente, abertas pelo inevitável «pós». É assim que ouvimos falar de uma época «pós-moderna», «pós-religiosa» (mas também «pós-secular), «pós-cultural», etc. Nada surge como sólido. Tudo se afigura «líquido» (Zigmunt Bauman) e, portanto, inseguro, movediço, transitório, efémero. Há quem fique deslumbrado ante a expectativa da próxima novidade.

Mas não falta igualmente quem se mostre assustado perante a dissolução do que, ainda há pouco, parecia duradouramente novo. Neste tempo «super-hiper-mega» (onde predominam os «supermercados», as «hiperpromoções» e o «megaconsumo»), vamos perdendo a última réstia de autodomínio. É particularmente no recurso às novas tecnologias que revelamos uma cada vez maior dificuldade em perceber os limites.

A nossa propensão é para um uso ilimitado. A todas as horas e em praticamente todos os locais, estamos acompanhados (pelo menos) de um telemóvel. Em casa, a viajar, a comer, a estudar e até a rezar, ele surge como o omnipresente companheiro. Já mal nos imaginamos sem ele. É uma espécie de aditivo da nossa personalidade. Não vemos quase nada diretamente. Já nos habituamos a ver quase tudo através do telemóvel.

Não espanta, pois, que, há dias, o Santo Padre tenha sentido necessidade de recordar que o celebrante, na Missa, diz «corações ao alto» e não «telemóveis ao alto». Concretizando, não escondeu o seu desconforto por ver tantos telemóveis no ar durante as celebrações. E «não são só os fiéis; são também alguns sacerdotes e até bispos».

É hora de reflectir e (também) de inflectir. Será que o excesso de progresso não pode redundar num retrocesso? A fé não tem de estar ausente do telemóvel. Mas o telemóvel terá de estar sempre presente na vivência da fé? Na vida, nem tudo é para fotografar. E, na fé, há momentos em que, só fechando os olhos, conseguimos (verdadeiramente) ver!


Frei Francisco Bezerra do Nascimento, OFMConv.

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