A SANTIDADE

No dia 1 de Novembro a Igreja celebra o dia de Todos os Santos.

Esta Festa não é dedicada a nenhum santo em especial, mas a todos aqueles que, tendo vivido segundo a vontade de Deus, gozam agora por Sua graça, da/na Sua presença, o louvor eterno do amor de Deus.

E todos os que estão na presença de Deus, depois de concluída a sua peregrinação na terra, são santos, independentemente de estarem ou não nos altares da Igreja, de serem ou não conhecidas as suas virtudes, ou de terem, por reconhecimento da Igreja, alguma devoção específica.

Ora isto leva-nos a pensar que, há alguns anos atrás havia a “convicção” de que os santos eram homens e mulheres, “sobredotados” por Deus, de dons e graças, que os conduziam a essa santidade.

Aparecia a nossos olhos a ideia de que. para ser santo, para além de ter de ser um “preferido” de Deus, seriam precisos sacrifícios imensos, mortificações terríveis, e sobretudo, um modo de viver quase afastado do mundo.
Ora se assim fosse, a santidade seria algo de praticamente inatingível, seria algo em que apenas alguns “escolhidos” por Deus, poderiam alcançar.

Mas nós sabemos que Deus ama os seus filhos por igual, que Deus não faz acepção de pessoas, que Deus dá a cada um o necessário, para que cada um se forme, se conforme à Sua vontade.
E a santidade não é mais do que fazer a vontade de Deus!

E a vontade de Deus para cada um, é que cada um viva a vida que lhe foi dada, como lhe foi dada, ou seja, naquilo que cada um é, e faz, à luz do ensinamento de Jesus Cristo e da Igreja, tendo para tal a permanente assistência e condução do Espírito Santo.

«41. Nos vários géneros e ocupações da vida, é sempre a mesma a santidade que é cultivada por aqueles que são conduzidos pelo Espírito de Deus e, obedientes à voz do Pai, adorando em espírito e verdade a Deus Pai, seguem a Cristo pobre, humilde, e levando a cruz, a fim de merecerem ser participantes da Sua glória. Cada um, segundo os próprios dons e funções, deve progredir sem desfalecimentos pelo caminho da fé viva, que estimula a esperança e que actua pela caridade.» Lumen Gentium

Viver a santidade, ser santo, é então fazer a vontade de Deus como pais, como filhos, como trabalhadores em cada vocação, em cada profissão, em cada estado de vida a que somos chamados.

Se Deus nos chamou à vocação do Matrimónio, é no Matrimónio que devemos ser santos, entre esposos, entre pais e filhos, percebendo sempre que a vontade de Deus é a família que Ele nos deu, e que esta deve merecer a nossa máxima atenção, e nada, a não ser Deus, pode estar acima dela.
No trabalho, seja ele qual for, mais intelectual, mais administrativo, mais braçal, vivê-lo sempre como uma bênção de Deus, a que o próprio Deus nos chama, para com Ele construirmos um mundo melhor, enformado no Seu amor. Por isso deve revestir-se de toda a honestidade, de toda a preocupação com o testemunho que cada um dá, da fé que vive, da Doutrina que professa.
Nas contrariedades e provações, compreender que Deus está connosco, e, aceitando-as, lutar para as ultrapassar, no testemunho de quem não se desespera, porque sabe que Deus nunca nos abandona.

Um Santo dos nossos tempos, São Josemaria Escrivá, (nasceu em 1902 e faleceu em 1975), foi um dos grandes arautos dessa única forma de viver a santidade no dia-a-dia e em cada forma de vida a que cada um é chamado viver.

Três citações das suas obras:

«Esta é a tua tarefa de cidadão cristão: contribuir para que o amor e a liberdade de Cristo presidam a todas as manifestações da vida moderna: a cultura e a economia, o trabalho e o descanso, a vida de família e a convivência social.» Sulco, 302

«Santificar o nosso trabalho não é uma quimera; é missão de todos os cristãos... - tua e minha.
Foi o que descobriu aquele torneiro, que comentava: - "Põe-me louco de contente essa certeza de que eu, manejando o torno e cantando, cantando muito - por dentro e por fora -, posso fazer-me santo... Que bondade a do nosso Deus!".» Sulco, 517

«Tens de permanecer vigilante, para que os teus êxitos profissionais ou os teus fracassos - que hão-de vir! - não te façam esquecer, ainda que seja só momentaneamente, qual o verdadeiro fim do teu trabalho: a glória de Deus!» Forja, 704

Também o nosso Bispo, D. António Marto, nos fala desta santidade no dia-a-dia no mundo em que vivemos, na sua recente Carta Pastoral “Testemunhas de Cristo no mundo”.

3.1 …Mas não existe verdadeira e plena qualidade de vida sem vida espiritual de qualidade. Para o cristão isto chama-se a santidade de vida no mundo. O empenho cristão na construção de um mundo justo, fraterno e pacífico, do seu desenvolvimento integral, da sua humanização através do trabalho de cada dia é expressão do seu amor filial a Deus e do seu amor ao próximo.
Nesta perspectiva cristã, o mundo é um verdadeiro lugar de graça, de vocação e missão, de santificação para os fiéis leigos que aí vivem e trabalham. Estes fiéis são chamados a santificar-se no mundo, através do mundo e com o mundo em Deus. Os grandes santos amaram o mundo do seu tempo mesmo em crise. O cristão santifica-se não só na caridade pessoal, mas também na caridade social e política – no sentido mais nobre da palavra – quando faz obra de justiça, solidariedade e promoção humana.

É preciso perceber que, para viver esta santidade que Deus, pela Sua Igreja, nos propõe e chama, só a podemos viver numa vida de compromisso diário com Cristo, e que para tal, se torna indispensável a vivência dos Sacramentos da Igreja, que são a presença real de Jesus Cristo no meio de nós.

E, claro, destes Sacramentos é de única, central e imprescindível vivência, a Eucaristia.

O tema é tão vasto que não cabe neste pequeno texto, mas, porque é de capital importância, transcrevem-se as palavras do Papa Bento XVI na Vigília de Oração com os jovens na Feira de Freiburg im Breisgau (24 de Setembro de 2011).

«Queridos amigos, o apóstolo São Paulo, em muitas das suas cartas, não tem receio de designar por «santos» os seus contemporâneos, os membros das comunidade locais. Aqui torna-se evidente que cada baptizado – ainda antes de poder realizar boas obras ou particulares acções – é santificado por Deus.

No baptismo, o Senhor acende, por assim dizer, uma luz na nossa vida, uma luz que o Catecismo chama a graça santificante. Quem conservar essa luz, quem viver na graça, é efectivamente santo.

Queridos amigos, a imagem dos santos foi repetidamente objecto de caricatura e apresentada de modo distorcido, como se o ser santo significasse estar fora da realidade, ser ingénuo e viver sem alegria.

Não é raro pensar-se que um santo seja apenas aquele que realiza acções ascéticas e morais de nível altíssimo, pelo que se pode certamente venerar mas nunca imitar na própria vida. Como é errada e desalentadora esta visão! Não há nenhum santo, à excepção da bem-aventurada Virgem Maria, que não tenha conhecido também o pecado e que não tenha caído alguma vez.

Queridos amigos, Cristo não se interessa tanto de quantas vezes vacilastes e caístes na vida, como sobretudo de quantas vezes vos erguestes. Não exige acções extraordinárias, mas quer que a sua luz brilhe em vós. Não vos chama porque sois bons e perfeitos, mas porque Ele é bom e quer tornar-vos seus amigos.

Sim, vós sois a luz do mundo, porque Jesus é a vossa luz. Sois cristãos, não porque realizais coisas singulares e extraordinárias, mas porque Ele, Cristo, é a vossa vida. Sois santos porque a sua graça atua em vós.»

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