SEREMOS APENAS «EX»?

Parece que, hoje em dia, somos todos «ex-alguma coisa». Basta abrir um jornal, folhear uma revista, ligar a televisão ou passear os olhos pelas redes sociais. Não é preciso muito para colecionar um cardápio de funções ou estados de vida antecedidos do (omnipresente) prefixo «ex».

A toda a hora, vemos listados «ex-ministros», «ex-vereadores», «ex-diretores», «ex-dirigentes», «ex-conselheiros», «ex-colaboradores», «ex-professores», «ex-colegas», «ex-manequins», «ex-futebolistas», «ex-treinadores», «ex-campeões», «ex-padres», «ex-maridos», «ex-companheiros», «ex-namorados» etc., etc.

Pouco faltará para que o nosso Presidente seja tratado como «ex-comentador»! Chegaremos, alguma vez, ao absurdo de descrever os mortos como «ex-vivos»? Sem nos apercebermos, identificam-nos mais pelo que fomos do que pelo que somos. Daí que, à medida que os anos correm, não falte quem tenha o seu nome precedido de vários «ex». É uma forma de dar relevo o que se foi. Mas, ao mesmo tempo, não será um modo de obscurecer o que se é?

Ao contrário do que pensamos, vivemos muito amarrados ao passado. É como se, a páginas tantas do «livro» da vida, ninguém olhasse pelas janelas do presente nem cuidasse de abrir as portas do futuro. Num tempo em que nos declaramos comprometidos com o que há-de vir, espanta que, afinal, nos mostremos tão enquistados no que já aconteceu. Não raramente, o que se deixou acaba por ter um impacto superior ao que se vai encontrando.

Até as relações mais estáveis estão a ser asfixiadas por uma crescente instabilidade. Apesar de não haver muitas referências a «ex-amigos», abundam expressões que verbalizam a efemeridade de algumas amizades. Quem já não se lastimou por causa dos «amigos da onça» ou «de Peniche»? E que pensar da «remoção» de amigos no «facebook»? Na era da velocidade, como é vertiginosa a passagem de amigo para «ex-amigo»! Com «ex-aluno» é diferente. Aliás, nem deveríamos usar «ex» antes de «aluno».
As aulas podem ter terminado, mas a aprendizagem nunca há-de cessar. Ser aluno — notou Xavier Zubiri — «pertence ao que não passa». O que jamais ouviremos é falar de «ex-pais», «ex-mães», «ex-filhos», «ex-irmãos». Não obstante os sobressaltos que possa haver, estes são laços eternos, a valer. Nem a morte apaga aquilo que na vida se apega. Pai, mãe, filhos e irmãos nunca são «ex». Estão sempre «in». Estão sempre dentro. Sempre no mais fundo de nós!



Frei Francisco Bezerra do Nascimento, OFMCon.
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