Histórias da ONU

No meio de tanta tragédia por esse mundo fora, dá gosto a evolução em contracorrente, em certas regiões. O acolhimento do Papa em Cuba, na ONU e nos EUA superou o de viagens de pontífices anteriores aos mesmos sítios.
A ditadura cubana, que recebeu João Paulo II de má cara, só porque não teve outro remédio, acolheu Francisco como um herói. O Congresso dos EUA, frio até agora, ouviu pela primeira vez um Papa e depois ovacionou-o, apesar da frontalidade com que ele falou. Pela primeira vez, os responsáveis daquele país, tão insuspeitos de simpatia pela Igreja, trataram o Papa como a referência ética mundial. E a ONU igual.
Aos poucos, o mundo melhora. Também há mudanças para pior, mas não vou falar dessas.
O efeito-Francisco na ONU lembra o que aconteceu há 30 anos. Era o dia 26 de Outubro de 1985, o ponto culminante das cerimónias do 40º aniversário das Nações Unidas. Agendaram para esse dia a estreia de um filme sobre a Madre Teresa de Calcutá e convidaram-na a estar presente. Não estava previsto que falasse, mas deram-lhe a palavra. O Secretário-geral da altura, Pérez de Cuéllar, apresentou-a como «a mulher mais poderosa do planeta». Embora a Madre Teresa não parecesse uma mulher deste planeta. Pelo menos, não sabia que a ONU tinha votado que não se podia rezar naquele espaço. Na sua ingenuidade, a Madre Teresa distribuiu folhinhas pela sala (que tem 1800 lugares) e pediu a todos que a acompanhassem a rezar aquela oração pela paz. O então cardeal de Nova York relata que assistiu ao coro insólito dos representantes do mundo pedindo a Deus o dom da paz (compensa ver os 3 minutos no youtube, pesquisando em 'madre teresa' 'onu' '1985'). [N. Spe Deus: vide vídeo abaixo) Em condições normais, muitos países teriam rejeitado a extravagância, mas a ONU estava diferente naquele dia: o cardeal de Nova York conta como os aplausos se prolongavam e alguns delegados escondiam as lágrimas.
Foi só naquele dia. Depois do brilho fulgurante daquele cometa extra-terrestre, as delegações voltaram à frieza dos seus cálculos. Esqueceram tudo? É difícil saber. Houve talvez pequenos passos, reacções pessoais, o zumbido persistente de uma pergunta sem cura: a minha vida poderia ser diferente?
A irrupção do Papa Francisco em Cuba, na ONU e nos EUA foi assim, inesperada e surreal. Arqui-adversários da Igreja comoveram-se, a tal ponto que disseram exactamente o contrário do que lhes costumamos ouvir. Vai durar?
Li há pouco uma biografia da Madre Teresa, com os seus feitos e fracassos. Também este Papa teve insucessos, por exemplo quando uns dissidentes cubanos classificaram o fim do embargo como uma traição, porque o regime cairia mais depressa se continuasse a haver fome.
Alguns esforços da Madre Teresa também foram infrutíferos. O caso que mais me impressionou foi o seu empenho de ajudar Mons. Marcel Lefebvre, tradicionalista e depois cismático. Escreveu-lhe cinco cartas e ele não respondeu a nenhuma.
Nesta vida, há certamente tentações de libertinagem, mas há também o risco da dureza árdua, que esfria a ternura e impede de ver o bem. O mal agiganta-se e inquina toda a paisagem. A reacção instintiva é condenar. Se alguém dá um pequeno passo em direcção ao bem, isso parece tão insuficiente que se considera um sarcasmo.
A experiência faz pensar. Como é possível que os soviéticos tivessem mais atenções com a Madre Teresa que homens de imensa devoção? Os terríveis carrascos do século XX alteraram a legislação para que as freiras abrissem conventos em Moscovo; os que eram tão firmes a condenar o mal nem lhe responderam às cartas.
Deus nos livre de cair numa tal aversão ao mal que deixemos de sentir alegria pelo imenso bem que acontece à nossa volta. No limite, até a voz do Papa nos poderia causar tristeza.
José Maria C.S. André

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