ENTRE A FÚRIA E A INCÚRIA

O mundo vive das vitórias do cosmos sobre o caos e dos triunfos da ordem sobre a desordem. Mas a vida no mundo fica em perigo com as ameaças do caos contra o cosmos e com os atropelos da desordem contra a ordem. Tais ameaças e atropelos, não sendo contínuos, têm-se tornado cada vez mais frequentes e devastadores.

Os últimos dias mostraram-nos até onde pode chegar a (explosiva) combinação entre fúria e incúria: entre a fúria da natureza e a incúria do homem. O mais intrigante é sentir que, em muitos casos, a fúria da natureza é exponenciada pela incúria do homem. Como admitir que se faça queimar aquilo que já tem uma descontrolada predisposição para arder? Como entender que, quando a temperatura é alta, a responsabilidade seja tão baixa?

O pior é que, tal como sucede com muitos homens, também a natureza anda com falta de autodomínio. Quando se «sente» provocada, «revolta-se» e ninguém a detém. Na sua sanha devoradora, leva tudo na frente. Nem a vida humana é poupada. É sabido que a natureza tanto nos abriga como nos agride. Pelo que o risco é constante e as cautelas serão sempre poucas.

Esta não é a hora de «imaginar mundos melhores». Como alertou Tony Judt, este é o momento de «prevenir mundos piores». Só que é precisamente aqui — na prevenção — que mais temos vindo a falhar. Temos falhado na prevenção sobre as flutuações da natureza. E temos falhado na prevenção sobre os comportamentos humanos.

De facto, é estranho que, revelando-se o homem impotente para melhorar a natureza, se mostre tão «potente» a destruir a natureza. Sucede que, ao destruir a natureza, o homem está a destruir-se a si mesmo. Em causa não está só a manutenção da floresta. Está, desde logo, a existência da própria floresta. Quem quiser desencadear um incêndio, poderá fazê-lo mesmo que as florestas estejam limpas.

Sem recriminações, há que apostar em efetivas soluções. Quando as temperaturas aumentam, têm de aumentar também as formas de vigilância: postos de vigia, aeronaves e satélites. E se as forças de segurança costumam atuar nos locais de maior perigo, há que lhes dar condições para que possam operar onde, atualmente, nascem os maiores perigos: nas matas e nos arvoredos. Um Ministério da Floresta e de Combate aos Incêndios merecia ter lugar em todos os governos. E um pelouro com as mesmas atribuições deveria também ser criado em todas as autarquias. O que tem sido tão dramático tem de começar a ser — definitivamente —prioritário!

N.B. Curvo-me respeitosamente perante os que morreram e os que sobreviveram. Façamos luto e continuemos a luta: luto pelos mortos e luta por uma maior proteção aos vivos!



Frei Francisco Bezerra do Nascimento, OFMConv.

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