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PECADOS QUE LEVAM AO INFERNO

O inferno é o castigo por uns aspectos passageiros de paixão, não carece ele de proporção?

Qual é, pois, o castigo devido ao pecado grave, com que  Deus deve vingar a sua majestade ultrajada?

Só pode ser o castigo do inferno eterno!

Está provado, pelo dogma da Redenção, que o pecado grave é a maior ofensa, infidelidade, revolta e traição contra Deus, constituindo uma culpa infinita. Ora, sendo o homem um ser limitado, e não cabendo nele um castigo infinito por intensidade, deve ele sofrer um castigo que seja infinito pela duração, como é o castigo do inferno. É bem verdade que os nossos sentimentos não querem admitir castigo tão horrendo. Muitos criminam a Deus por faltar à proporção devida num castigo sem fim, infinito, para um crime passageiro, tantas vezes de um só momento, cometidos por um homem miserável. Entretanto, a sã razão tem de admitir forçosamente o castigo do inferno eterno, em virtude de raciocínios, como rigorosamente exigido pela natureza do pecado grave.

OBJEÇÃO
Até neste mundo há castigos análogos, por crimes semelhantes, porém incomparavelmente inferiores. Como é que são ás vezes vingadas e castigadas as infidelidade deste mundo? Por exemplo, a infidelidade conjugal, a revolta contra um príncipe, contra um rei, a traição à pátria? Às vezes pela morte! Ora, essas e outras infidelidades contra homens são incomparavelmente menores do que as infidelidades contra Deus; e, contudo, ninguém duvida da legitimidade do castigo pela pena capital, tirando-se por ela a vida para sempre do convívio da família, e até da sociedade humana. Ainda que o assassino se fizesse num momento, julga-se universalmente ser o castigo apropriado e equivalente só a morte ou reclusão perpétua do assassino.

A gravidade do pecado não se avalia só pelo fato praticado, mas também, e principalmente,  pela intenção que a ele preside. O pecado mortal é o ato de aversão a Deus e de conversão à criatura; é uma desobediência e ofensa grave, cuja consequência é a separação de Deus, o rompimento e a inimizade com Ele. Para cometer um pecado grave não é preciso atacar a Deus pessoalmente, levantar a mão contra Ele, injuriá-lo, revoltar-se contra Ele e resistir-lhe formal e obstinadamente. Basta transgredir uma lei grave, estabelecida por Ele; basta saber que Ele o proibiu, e querer assim mesmo fazê-lo. 

O pecado grave pode-se cometer num mínimo de tempo, num instante. Sabendo-se que se trata de uma lei, de uma proibição séria e grave, é ele perpetrado no momento em que a vontade se resolve definitivamente a transgredi-la. O pecado grave merece, sem dúvida alguma, o inferno eterno, ainda que tenha sido cometido num simples momento, ou em pensamento. Mas – pergunta-se – onde está a proporção entre o ato e a pena eterna? Está na  desobediência e ofensa grave, na separação refletida e voluntária de Deus, à imitação de Lúcifer, que se decidiu a não servir a Deus: “Não te servirei!” É a revolta contra o Soberano Senhor! É o homem contra Deus, a criatura racional dotada de inteligência e vontade, que se nega a obedecer. No mesmo instante que a resolução é tomada, cabe a censura, a sanção, a consequência fatal e natural: se Deus chamasse o homem imediatamente a prestar contas, sem este revogar o seu ato e sem se arrepender dele, teria ele o inferno certo e por toda a eternidade! Deus, como supremo legislador, indubitavelmente tinha que estabelecer uma sanção absoluta, que não deixasse o homem à vontade para pecar livre e impunemente por qualquer tempo que fosse. A reação, a defesa, o castigo pode cair no momento após o pecado; é o direito de Deus contra o prevaricador. Esta possibilidade é uma absoluta necessidade; do contrário, toda a ordem moral andaria fora dos eixos, não teria garantia suficiente contra o abuso dos maus.  Deve o homem saber que não tem a liberdade de ofender a Deus por tempo algum, por um momento que seja. Este fato, esta realidade, deve inspirar-lhe o devido respeito e temor a Deus, nunca se atrevendo a ofendê-lo gravemente, a erguer-se contra Ele. E não só tem o homem diante de si essa terrível sanção do inferno, mas que um simples momento pode fazê-lo cair nele. Reflexão terrível, que, como a luz fulminante de um raio divino, nos faz reconhecer e avaliar em todas as suas formidáveis consequências a nossa responsabilidade moral perante Deus e perante nós mesmos.

Deus podia chamar o pecador a prestar contas logo após o primeiro pecado grave, sem lhe conceder prazo pra reparar a sua falta, condenando-o logo ao inferno eterno. A natureza do pecado grave é razão suficiente para sentença e castigo. Se Ele não usa mais vezes desse direito, é por infinita bondade e infinita misericórdia. Às vezes aceita o desafio de Lúcifer e de seus cúmplices na revolta! Assim, de vez em quando morre uma pessoa quase no ato do pecado. Que fazem os homens em tais ocasiões? Um devasso ou um ladrão, que desafia homens, sendo surpreendido no adultério ou no roubo, facilmente recebe uma bala! Se morre, é feita e satisfeita a justiça humana! Ninguém pretenderá que não seja justo. E porque o homem é responsável pelos seus atos; recebeu inteligência e vontade para usá-las retamente e com todo cuidado. Fica a cargo de Deus julgar e determinar quando a malícia humana basta, quando a sua medida está cheia, para chamar o criminoso a prestar contas, e ao castigo eterno.

Em todo caso, não é costume de Deus chamar a  prestar contas do pecado logo após o primeiro pecado grave. Talvez seja até uma rara exceção. Pelo menos, não são muitos os casos em que os criminosos são surpreendidos e fulminados pela morte repentina. O mais se subtrai à nossa indagação e conclusão. A regra geral, portanto, é que Deus deixa aos pecadores certo prazo para refletir e se arrependerem; para resolverem definitivamente se querem continuar a pecar, ou se querem voltar para Ele, pedindo-  -lhe perdão e fazendo penitência. O pecado grave coloca o pecador no ESTADO DE PECADO, no estado de inimizade com Deus, se nele já não estiver por anterior pecado. Este estado continua, perdura mais ou menos tempo até que o homem penitente receba o perdão de Deus. É como o pecado prolongado, permanente, sustentado. É uma revolta, uma prevaricação, uma impiedade contínua, quase tantas vezes repetida quantas o pecador, lembrando-se do seu pecado, não quiser largá-lo, arrepender-se dele. O pecado inicial vai piorando, conforme a disposição da alma, da vontade, para com Deus e para com o cumprimento dos próprios deveres. É quase um ininterrupto desafio de Deus. É a inimizade declarada, iniciada pelo primeiro pecado, e mantida a todo o transe. O estado de pecado mortal tornar-se-á tanto pior quanto mais tempo o pecador se recusar a retroceder, e quanto mais ousadamente resistir a Deus.

Se cada ato de pecado mortal, por si e em princípio, merece o castigo do inferno, muito e muito mais o merece o próprio estado de pecado mortal. Está visto! Sendo este o caso geral dos pecados, pode-se, de certo, dizer que o inferno é muito mais e propriamente o castigo dos impenitentes, e que Deus, devendo estabelecer também o inferno para os que morrem no ato de cometer um pecado mortal, para salvaguardar a intangibilidade das leis e da ordem, estabeleceu o inferno como castigo dos próprios impenitentes. Sendo o caso destes geral e universal, é preciso salientar que o inferno não é tanto o castigo de um pecado grave, rápido, quanto o castigo desse mesmo pecado continuado e sustentado apesar de todos as reclamações da consciência e de Deus, apesar do conhecimento das nefastas consequências dele. Pela continuação e obstinação no mal, como pela impenitência, cresce imensamente a culpa. Errar é humano; mas perseverar no erro é diabólico e merece os castigos dos demônios.

Existe enorme diferença entre o estado de pecado mortal e atos isolados gravemente pecaminosos, dos quais o pecador se arrepende. O filho que comete faltas graves contra o pai, mas, a cada vez, pede perdão, facilmente o recebe. Se, porém, continuasse insubordinado, mereceria perdão? Deveria ou poderia o pai razoavelmente conceder-lho sempre? Não. Neste caso o filho não passaria de um revoltoso e insubordinado, e poderia sobreviver o estado de inimizade e de ódio entre pai e filho! Suponhamos um monarca glorioso e sábio como Salomão, justiceiro pelas leis estabelecidas, com muitos vassalos, entre os quais uns dez insubmissos e ambiciosos, que levam o facho da revolta através do país. O monarca vence-os, reduzindo-os á impotência, obrigando-os a pedir paz e perdão. Alguns pedem e recebem perdão; são agraciados. Outros, porém, não querem reconhecer o mal que fizeram ao monarca e ao país; não querem saber dos direitos do soberano e curvar-se, nem pedir perdão, mas continuam revoltados. O rei será ainda obrigado a conceder-lhes perdão, sem eles o quererem? Seria absurdo. Continuam eles no estado de revolta e inimizade declarada contra o legítimo príncipe e rei. São, pois, réus de alta traição. Se forem apanhados, deverão, pela lei, padecer o castigo correspondente, sem dó nem piedade! É justiça! Por exemplos como este depreende-se bem a enorme distância que medeia entre os atos pecaminosos isolados, terminados e anulados pela contrição, e o estado de pecado mortal, que persiste insolentemente. Exterior e fisicamente aparece talvez só o primeiro ato do pecado inicial, mas moral e verdadeiramente ele é simples fração da culpa.

O pecado inicial é só primeiro passo no caminho do inferno, ao qual se ligam todo dia outros passos formados pela reafirmação do primeiro, sustentando o mesmo contra Deus. Se o pecador quisesse por fim à sua rebeldia contra Deus, os seus atos criminosos seriam perdoáveis; e tanto mais perdoáveis quanto cometidos com menor malícia e maior fraqueza! Havendo alguma boa vontade, seria ele facilmente perdoado, conforme ensina a religião. O homem é fraco, muito fraco, e cai facilmente ao sustentar o seu erro, contra todo o bom senso. Refletindo, deveria imediatamente revogá-lo e anulá-lo, pedindo sinceramente perdão. Que este pedido seja aceito e que Deus se deixe aplacar, é o que o homem razoável deve urgentemente implorar. O criminoso que matou, não poderá ressuscitar o morto; é verdade; fisicamente é impossível reparar o crime. Se o pudesse e o não fizesse, cometeria uma malvadeza, e a culpa seria muito mais agravada. Moralmente, porém, o pecador sempre pode desfazer o mal que fez, revogar o seu ato iníquo, detestando-o e rejeitando-o pela vontade, querendo sinceramente não o haver feito. É o menos que Deus exige do culpado para eximi-lo do castigo eterno. Deus espera do pecador que este seja razoável, que não continue no pecado, que não acrescente mal a mal, ofendendo-o e irritando-o ainda mais. Instituiu o sacramento da confissão, dando ao pecador toda facilidade de se conciliar com Ele. Quer e espera a volta do filho pródigo, embora não lhe faça violência. Fala-lhe à consciência, chamando e ameaçando. Será como o pecador quiser e resolver, sendo depois tratado em conformidade com a sua atitude. Se tiver boa intenção, facilmente alcançará o perdão. Que acontece, porém, tantas vezes? Em vez de desfazer o mal que fez e de pedir perdão, o pecador continua revoltado contra Deus, obstina-se no mal, às vezes até diabolicamente, rindo, e troçando de Deus. Recusa ouvir a voz da consciência, ou incomodar-se com as exigências de Deus. Longe de retroceder no caminho do mal, quer ir adiante, completar o mal e gozar de qualquer modo, o mais que poder, licita ou ilicitamente. Não muda de intento, mas repete os mesmos pecados exteriores, aprovando e ratificando interiormente os que já cometeu. Não se retrata, não os revoga, mas antes os multiplica pela má intenção. O primeiro pecado grave não revogado tornou-se como que o primeiro elo de grande corrente, formada por tantos elos novos, inseparavelmente ligados entre si, quantas vezes o pecador ratificou em pensamento o mal feito. E se sustentar o seu pecado até a morte, essa corrente prenderá o infeliz inseparavelmente ao inferno. 

Parece bem menor a culpa de quem comete um ou outro pecado grave durante um ano, arrependendo-se e purificando-se logo em seguida, do que a daquele que comete um só, mas ficar, por exemplo, no estado pecaminoso o ano inteiro. Dia e noite, pensa rancorosamente num inimigo, sustentando a inimizade e o mal que tantas vezes já lhe tem desejado. Continua ininterruptamente a tecer o seu tecido de morte, juntando fio a fio, por pensamentos e sentimentos más, repetidos. Com as suas vinganças imaginadas trança a rede em que se prende a si próprio! Só Deus pode avaliar quanto mais grave é um tal pecado continuado e permanente, do que o isolado, do mesmo gênero, mas do qual houve arrependimento. No primeiro caso o pecador fica sempre envolvido nas trevas da morte, ao passo que no segundo sai cada vez do seu estado lastimável para a luz do Senhor, aproveitando da misericórdia. Os pecados do impenitente não são, portanto, atos maus passageiros e terminados, tornando logo a desaparecer pela contrição. São atos prolongados, que o colocam e mantêm no estado de pecado e de contínua inimizade com Deus. Crescem à medida que ele continuar na sua impenitência, não querendo converter-se. Neste caso, merece ele ir e irá para o inferno, justamente por causa de sua impenitência, uma vez que não quer reparar o mal cometido.

O inferno, portanto, não é tanto o castigo devido a alguns pecados transitórios, porém muito mais o castigo do estado pecaminoso, que aumenta a culpa. Quem assim viver em contínua revolta contra Deus e morrer nesse estado, não pode esperar outra sorte, senão a de ser reprovado e relegado para o fogo eterno. “Quem não é por mim é contra mim”, declarou Nosso Senhor (Mt. 12, 30). Portanto, quem não for seu amigo e seu fiel servo, permanecendo longe dele durante a vida; será por ele considerado inimigo. Aos mundanos parece não ser nada viver sem se incomodar com Deus e com a religião, e gozando a vida; parece tão inocente e natural! Entretanto, é quanto basta para ser reprovado. Vivem eles como se não houvesse Deus, não dando a ele o que naturalmente se lhe deve. Vivem no estado de afastamento de Deus, não cumprindo seus deveres graves, razão mais que suficiente para não ter parte n’Ele e cair no inferno. Este é o castigo devido ao seu estado de revolta, em virtude do qual não querem saber do serviço de Deus, nem se incomodar com as coisas de Deus. Vida sem religião é o grande pecado contínuo do século, a apostasia de Deus, a apostasia de Cristo! Quem viver em revolta contra Deus, com pecados graves no coração, sem querer largá-los, torna-se inimigo d’Ele, repelido por Ele e exposto ao inferno. E não fica só nisto. Não se dissolvendo por efeito de melhores sentimentos, a resistência a Deus e a revolta progridem, desenvolvendo-se às vezes até às últimas consequências, até ao ódio de Deus e a uma espécie de deicídio. O pecador que não quer deixar os seus pecados lembrando-se do castigo que Deus terá de infligir-lhe, revolta-se; desde logo resiste no interior. Acusa a Deus e começa a odiá-lo por seus castigos. Aspira ao seu aniquilamento e quereria até matá-lo, se pudesse. Totalmente descontente com Deus, que não quer deixá-lo fazer a própria vontade, mas ameaça castigá-lo, ele se vingaria se possível; falo ao menos pelos sentimentos do coração, que Deus considera como outras tantas realidades. É conhecido o fato histórico ocorrido em Bristrizza, na Sérvia, em 1891. Vendo que chovia pedras, um furioso taverneiro pegou da espingarda, dizendo que ia vingar-se de Deus e atirar n’Ele. De fato, deu um tiro em direção ao céu, como se fosse para matá-lO. Deus aceitou o desafio, e no mesmo instante o infeliz caiu morto, como se ele próprio tivesse recebido a bala no coração. Isto aconteceu em presença de numerosos espectadores, testemunhas do fato. Não quer dizer que todos os pecadores estejam nesse caso, nem que todos tenham chegado a semelhantes extremos. Só os grandes pecadores, os próprios impenitentes e ímpios sustentam a sua revolta contra Deus, e continuam tenazmente na atitude de inimigos mortais. Tal atitude é um contínuo atentado de traição.  Como é claro que cometem o crime de alta traição e merecem o sumo castigo não somente aqueles que atentam contra a própria vida do príncipe, mas também os que fomentam qualquer revolta contra ele e contra a sua autoridade ou contra a ordem estabelecida, assim é claríssimo que merecem o inferno todos os que vivem e morrem impenitentes e inimigos de Deus e de suas legitimas instituições. Pois ao modo humano de vigar crimes dessa natureza corresponde só e perfeitamente a perda da vida eterna no cárcere do inferno.

Quanto à NATUREZA DO INFERNO E DOS SEUS SOFRIMENTOS, convém notar e salientar que SÃO A CONSEQUÊNCIA NATURAL DO PECADO GRAVE. Para compreender bem esta verdade, é preciso examinar a natureza do pecado. Conforme São Tomás de Aquino, o pecado consiste na aversão contra Deus e na conversão às criaturas. Todo pecado encerra uma dupla desordem: a separação de Deus, com o desprezo dos seus direitos mais sagrados, e a volta às criaturas como ao último fim. A esta dupla desordem deve corresponder uma dupla reparação, um duplo castigo: a privação de Deus, em castigo da apostasia; a dor positiva vinda das criaturas, em castigo do prazer criminosamente tirado das mesmas. Destarte fica satisfeita a justiça divina relativamente à dupla inversão das relações para com o Criador, a qual constitui o pecado. Pecando gravemente, o pecador abandona a Deus, procurando a sua satisfação nas criaturas. Por justo castigo, Deus abandona o pecador impenitente; e as mesmas criaturas, de quem o pecador abusava pecando, se levantam contra ele, para vingar o desrespeito e as injustiças cometidas contra o Criador e Senhor de tudo. O ponto central da questão presente é entender bem o que significa para o homem a separação definitiva de Deus, e o que é Deus para ele. Deus é a vida e felicidade do homem. A união definitiva com Ele é o céu. Ver a Deus e possuí-lo definitivamente é a bem aventurança eterna, é a completa satisfação de todas as potências da alma; da inteligência, possuindo o sumo bem; do coração, possuindo a infinita beleza e felicidade. Sendo o inferno a negação do céu, a separação definitiva de Deus, será ele, pois, a perda da visão e posse de Deus e de tudo quanto pode tornar a alma humana eternamente feliz; será, a perda de tudo quanto é satisfação, alegria e felicidade. A inteligência, como a vista corporal, será envolta nas trevas eternas. Tanto a inteligência como a vontade e o coração serão envolvidos em perpétuas contradições e desgostos, por ficarem privados de ver, possuir e gozar o que intimamente tanto quereriam e com toda a natureza reclamam, reclamando-o incomparavelmente mais do que o faminto e sedento reclama a comida e bebida. À falta absoluta de qualquer substitutivo e distração, que sempre há aqui na terra, o réprobo sente a maior falta de tudo, e portanto os maiores desgostos que se possam imaginar. Realmente, a separação de Deus e a perda do gozo de todos os seus dons, bens e belezas infinitas, constituem um verdadeiro inferno, não só cheio de desgosto, mas também cheio de tormentos horríveis. Considerando, por exemplo, que também a saúde, a isenção de todo incomodo corporal, é um imenso dom de Deus, logo se vê que a falta completa dela, por si só e sem fogo, encerra verdadeiros horrores de sofrimentos corporais.

Se ao homem falta a saúde em toda extensão, tendo ele assim de sofrer em todos os seus sentidos moléstias e dores, tendo, p. ex., de suportar simultaneamente dores agudas nos olhos, nos dentes, no estômago, em todo o corpo, sem poder repousar, dormir e morrer. Ó, é um inferno! Suporta isso uma semana já não é um pequeno inferno? Todas estas imaginações serão realidades no momento da última ressurreição, quando a alma do réprobo se unir ao corpo, a fim de assistir à grande justificação de Deus no último juízo, e ouvir os porquês da sua condenação e dos seus sofrimentos. Os teólogos dividem as penas do inferno em duas categorias; a 1.ª é a espantosa pena da condenação eterna. É a pena primária e dominante, que consiste na separação definitiva de Deus, por sentença irrevogável do eterno juiz. Pesa sobre o condenado a reprovação e a maldição do próprio Deus. Sentindo-se, por íntima necessidade da natureza, irreversível e perpetuamente atraído por Deus, seu princípio, centro e fim, complemento de todas as suas faculdades e necessidades, pela condenação eterna sentir-se-á sempre e perpetuamente repelido e detido para longe da satisfação que todo o seu ser reclama. É a privação efetiva e absoluta de todo bem! Da condenação eterna resultam o desespero e o remorso mais profundo, completo e espantoso que se possa imaginar. É o verme roedor, que atormenta os condenados eternamente, sem jamais morrer, como Nosso Senhor preveniu. Ele próprio compara-o a um verme, que nasce, na alma do réprobo, da corrupção do pecado, como nos cadáveres os vermes nascem da corrupção da carne. O desespero e o remorso serão absolutos, irrevogáveis e sem remédio. – “Perdi-me, - assim gritará o condenado incessantemente, - perdi Deus e o céu, porque quis; perdi tudo para sempre, por coisas fúteis, por nada”. Tendo falecido como inimigos de Deus, os réprobos continuam inimigos dele por toda a eternidade. Sentindo-se odiados, reprovados e amaldiçoados por Deus, odeiam-no e amaldiçoam-no, não O conhecendo mais senão nos terríveis efeitos da sua justiça implacável.  Receberam assim os réprobos o quanto queriam. Queriam viver sem Deus, viver como inimigos de Deus por toda a eternidade! Desde que o pecador, repetidas vezes em sua vida, renunciou livre e deliberadamente a posse de Deus, a razão não pode achar imerecida a pena da condenação eterna.  A 2.ª categoria das penas do inferno é a horrível pena do fogo. A primeira é da alma, a segunda é do sentido, como é chamada. O corpo, cúmplice que foi do pecado, e muitíssimas vezes o seu motivo, justíssimo é que receba o seu castigo, e recebê-lo a principalmente pela pena do fogo. Esse fogo não é, conforme os racionalistas tentam interpretar a Sagrada Escritura, fogo no sentido metafórico e figurado, porém fogo real e corporal, vindo do exterior, criado e mantido por Deus como instrumento da sua vingança.

Os réprobos se acharão verdadeiramente numa prisão de fogo, que se apagará nunca: é inextinguível e eterno! Só sabemos da existência e da eternidade desse fogo pela revelação; não lhe conhecemos a natureza nem o modo de ação. Ele quase nada tem de comum com o fogo terreno; assemelhasse a este, dizem os santos, como um fogo pintado se parece com o real. É um fogo incompreensível e sobrenatural. O que dele sabemos e basta saber, é que é fogo real, espantoso, produzindo sensações parecidas com as do fogo terrestre, porém incomparavelmente mais terríveis. Os racionalistas rejeitam-no como uma crueldade inútil. De fato, depois do último juízo, não terá ele outra utilidade senão a de satisfazer a divina justiça, castigando devidamente os perversos inimigos de Deus. Na realidade, as duas penas do inferno pode aplicar-se, em sentido inverso, a palavra de São Paulo a respeito do céu; “Olhos humanos nunca viram, nem ouvidos nunca ouviram, nem nunca entrou no coração dum mortal, o que Deus, na sua justiça, tem preparado para os impenitentes no inferno”. É agora o momento próprio de dar a solução devida a uma objeção grave, que se dirige, não tanto contra a existência do inferno, quanto contra a justiça de Deus. – “Se assim é o inferno, - reclama alguém em nome de muitos outros, - todos nós somos logrados por Deus. A justiça de Deus passa a ser uma injustiça, castigando-nos com um castigo que não conhecemos, cujo alcance e cujos horrores nem longe suspeitamos”. Para rematar a acusação e sustentar a impossibilidade de tal castigo, objetam ainda: “Ah! se os homens soubessem de que é que se trata, deveriam ser simplesmente loucos para praticarem o mal e cometerem sequer um só pecado grave!” Querem esses negar a Deus o direito de impor tão enorme castigo, atentando a que o pecador não conhecia inteiramente as consequências terríveis e eternas do pecado, e destarte não era responsável.



Retirado do Almanaque TRADIÇÃO CATÓLICA N.41

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