APARENTE INDIFERENÇA E RUDEZA

Tudo se passa para os lados de Tiro e de Sídon (cf. Mt 15, 21). São duas cidades da Fenícia (atual Líbano), ao norte da Galileia. Desde o tempo de Pompeu (por volta de 64 a.C.), a Fenícia estava anexada à Síria. Sídon distava aproximadamente 32 km de Beirute. Tiro era muito famosa na antiguidade, pois os fenícios dominavam o mundo da navegação.

Refira-se que, no passado, os reis de Tiro tinham feito uma aliança com David e Salomão. Eles enviariam madeira e mão-de-obra para a construção do templo. Em contrapartida, Salomão enviaria ao rei Hirão, de Tiro, mantimentos e cereais de que a sua população precisava. Sucede que as consequências deste acordo foram catastróficas para Israel, pois o sucessor de Hirão fez essa aliança com Israel através do casamento da sua filha com o rei Acab. Foi essa filha, chamada Jezabel, que introduziu o culto idolátrico de Baal entre os israelitas, o que provocou um profundo desgosto em Deus.

Havia, portanto, uma espécie de barreira entre Jesus e aquela mulher. Os povos a que pertenciam não primavam por uma relação propriamente amistosa. O respectivo passado condicionava — bastante — o presente. Daí a reação de aparente indiferença por parte de Jesus. Ao pedido inicial da mulher Jesus responde com silêncio. Dos Seus lábios não sai uma única palavra (cf. 15, 23).

Do silêncio passa a uma aparente rudeza. Os discípulos fazem o papel de porta-voz do pedido daquela mulher: «Atende-a, porque ela vem a gritar atrás de nós» (Mt 15, 23). Aqui, Jesus parece afetado por um estranho nacionalismo: «Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel» (Mt 15, 24). Tal nacionalismo afigura-se ainda mais exacerbado ante o último — e sumamente dramático — apelo da mulher: «Socorre-me, Senhor» (Mt 15, 25). «Não é justo — atalha Jesus — que se tome o pão dos filhos para o lançar aos cachorrinhos» (Mt 15, 26).




Frei Francisco Bezerra do Nascimento, OFMConv.

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