O ROSTO DA EUROPA

"A Europa jaz, posta nos cotovelos" - escrevia Fernando Pessoa, no primeiro poema da Mensagem, dando assim início à descrição heráldica do primeiro quartel, "o dos castelos", em "os campos" do "brasão" nacional. Não será por acaso que, na primeira referência à identidade cultural da Europa, se alude ao seu passado helénico: "olhos gregos, lembrando". A Europa não é uma evidência geográfica, nem histórica e, portanto, só um elemento de carácter cultural a poderá individuar e diferenciar dos restantes continentes. Se o pensamento especulativo foi a grandeza da Grécia e o primeiro elemento da matriz civilizacional europeia, a Europa não se teria realizado sem a organização política de Roma. O império romano dotou a Europa de um sistema político e jurídico que, embora reconhecendo as singularidades das suas diferentes nações, lhe deu unidade. Se o corpo da Europa é a terra em que assenta e os povos que a habitam, o seu espírito foi, para além da cultura greco-latina, a religião cristã. O Cristianismo, durante mais de dois milénios, deu alma à Europa, unindo as suas gentes nos ideais cristãos, que tiveram depois expressão nas declarações dos direitos humanos. Também os princípios da revolução francesa, embora laica, têm uma raiz cristã, porque a liberdade e a igualdade são consequências da fraternidade universal dos filhos de Deus.

O Cristianismo foi também um fator de expansão. Os descobrimentos deram feição a essa ânsia universal, mais espiritual do que mercantil, porque mais alto do que os intuitos comerciais de especiarias ou de possessões ultramarinas, se ergueu sempre a cruz. No concerto das nações europeias, cabe a Portugal a missão de recordar ao continente a sua vocação universal. Porque o rosto com que a Europa fita o mundo, "com olhar esfíngico e fatal", é Portugal.

Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada

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