FILHA PRÓDIGA

Clara Ferreira Alves escreveu uma importante confissão no livro “Fátima, 1979-2016”. Intitulada “Deus, fala comigo!”, é uma confissão corajosa, porque desafia o ateísmo austero e o cinismo engraçadista que dominam o meio intelectual. Hoje em dia, a fé ou é esmagada pela bota cardada do cientismo ou é gozada pelo engraçadismo cínico que recusa acreditar em algo superior ao “eu” pósmoderninho. Estas duas predisposições dominam os círculos bem pensantes, as faculdades, os festivais disto e daquilo, as editoras, as redações. Ao assumir o regresso à fé, Clara Ferreira Alves demonstra coragem, que é, foi e será sempre a grande virtude moral e estética do escritor. Além de corajosa, a confissão é comovente. Revela alguém que, depois da revolta clássica contra Deus, regressa à sua casa de sempre, à sua infância, à sua Rosebud teológica. “Se o homem é o princípio e o m de todas as coisas, então a solidão humana é insuportável e a extinção também”, diz Ferreira Alves de forma clara.

A escritora regressa à fé da sua infância, garantindo que a “reconversão” é mais “inclemente do que a conversão”. E acrescenta: “Do ponto de vista de quem nasceu e cresceu dentro da fé, os convertidos são uma espécie bafejada. Fizeram a viagem em sentido contrário, tiveram mais sorte”. Discordo. Como convertido, como ex-ateu, não sinto esse superior conforto ou sorte. Sinto, aliás, o oposto. Por muito que se esforce, Paulo nunca será Pedro. Por muito que se esforce, Zaqueu nunca terá a sorte do Filho Pródigo: este regressa a casa, aquele entra pela primeira vez nessa casa já na vida adulta. Zaqueu nunca sentirá a comoção pura que brota deste regresso à Ítaca religiosa, que é mais íntima do que Ítaca propriamente dita; sentir-se-á sempre deslocado, sentir-se-á uma perpétua visita e não uma peça da mobília. Não é fácil chegar a uma casa aos 35 anos.

Além disso, a fé do convertido tardio tende a ser demasiado intelectualizada, demasiado afastada do “sexto sentido” invocado por Ferreira Alves. Esse instinto moral desenvolve-se na infância e está relacionado com as memórias dos nossos pais, com os bolos que a Clara ainda menina comia em Óbidos antes da caminhada final até Fátima. Eu comia sanduíches mistas no Canal Caveira a caminho de um deserto geográfico e religioso; eram e são as melhores sanduíches mistas do mundo, mas não são grande conforto teológico. Sim é evidente que a fé tem um lado racional. As leis da física e da química remetem para uma universalidade centralizador. A moral do direito natural remete para direitos inalienáveis que não dependem de poderes terrenos e direitos positivos, mas sim de uma esfera transcendente. Esta racionalidade porém não chega. Kant não chega. É preciso o tal sexto sentido, que está mais perto de quem passou a infância com o sacho da fé na mão. Uma terra que nunca foi amanhada é difícil de quebrar. Seja como for, a divisão entre convertidos e reconvertidos é um pormenor. Acima de tudo convertidos e reconvertidos devem estar conscientes de que “haverá mais alegria no Céu por um só pecador que se converte do que por noventa e nove justos que não necessitam de conversão” (Lc 15, 7).

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