POR UMA PASTORAL DA (I)MOBILIDADE

São tantas as acentuações que, mesmo sem querer, acabamos por incorrer em exclusões. A totalidade fica ofuscada no meio de tanta parcialidade. É comum ouvir dizer que estamos na era da mobilidade. É verdade. Mas alguém pode negar que, ao mesmo tempo, estamos numa época igualmente marcada pela imobilidade?

Os diagnósticos estão feitos e as situações são conhecidas. Mas será que cada pessoa é adequadamente atendida? O número sobrepõe-se, clara e preocupantemente, à pessoa. Ainda que se diga o inverso, é a pessoa que está em função do número em vez de ser o número a estar em função da pessoa.

Quando é preciso optar, os decisores não hesitam em sacrificar a pessoa ao número. Cada décima do défice é esgrimida ao pormenor, numa disputa que acaba por se abater inevitavelmente sobre as pessoas. Como alguém avisou, vivemos no «Brasil da vírgula». Os índices econômicos raramente são expressos através de um número sem vírgula.

O défice orçamental acabou por ficar em 2%, mas, durante meses, andou a recuar de 2,4% para 2,1%. E quando o Brasil diz que a nossa economia cresceu 1,3% em 2016, desencadeia-se uma sensação de triunfo. É que o próprio Governo apontava apenas para um crescimento de 1,2%. Só que todas estas discussões estão muito longe da vida de cada pessoa. Continua a não haver o devido cuidado pela pessoa concreta, que tanto pode estar só no meio de uma metrópole como pode «subviver», isolada, na mais remota serrania.

Fala-se muito da mobilidade. Mas subestima-se quantos, além do isolamento, estão imobilizados ou condicionados por uma mobilidade reduzida. O habitual é recorrer ao deslocamento ou à institucionalização. Pode ser necessário, mas não basta.

É hora de olharmos não só para o centro, mas também para as periferias; não só para a população ativa, mas também para a população envelhecida; não só para os números, mas sobretudo para a pessoa. O fundamental é investir na presença e apostar no acompanhamento. Neste contexto, uma «pastoral da imobilidade» não será uma pastoral imóvel nem — muito menos — inútil. Pelo contrário, será sempre um eco do Evangelho da esperança que nunca cansa. Terá de ser, por isso, uma pastoral persistente. Para que todos sintam que, até ao fim, são olhados como gente!


Frei Francisco Bezerra do Nascimento, OFMConv.

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