O PAVIO FUMEGANTE

Saiu sexta-feira a nova Exortação apostólica do Papa Francisco (8 de abril de 2016), acerca da vida familiar. Uma exposição ampla (a edição vaticana tem 272 páginas), com 391 notas de rodapé de referências explícitas e várias referências implícitas, muito curiosas. Em primeiro lugar, o título, tirado das palavras iniciais «Amoris laetitia». Os comentadores mais atentos repararam que são as primeiras palavras de uma frase de Bento XVI, concretamente da Carta apostólica «Porta fidei»:
«Amoris laetitia, responsio ad tormentum passionis et doloris, robur veniæ præ suscepta offensione...», ou seja: «A alegria do amor, a resposta ao drama do sofrimento e da dor, a força do perdão em face da ofensa recebida e a vitória da vida perante o vazio da morte, tudo se cumpre no mistério da Encarnação, no acto de Jesus Se fazer homem, de partilhar connosco a debilidade humana, para a transformar com a potência da sua Ressurreição».

O título do recente livro do Papa Francisco, «O nome de Deus é misericórdia» também era uma expressão de Bento XVI, concretamente: «A misericórdia é na realidade o núcleo central da mensagem evangélica, é o nome próprio de Deus, o rosto com o qual Ele Se revelou na antiga Aliança e plenamente em Jesus Cristo» (homilia de Bento XVI, 30 de Março de 2008).

Quando a pessoa começa a notar estas coincidências, fica atenta para reparar em muitas outras: por exemplo, a escolha do Cardeal de Viena, o discípulo mais próximo de Bento XVI, para apresentar a Exortação apostólica «Amoris laetitia». Na conferência de imprensa, ele fez questão de sublinhar a continuidade do magistério.

Não é a primeira vez que as referências bibliográficas são significativas no discurso do Papa Francisco. Por exemplo, quando as frases de alguns documentos, como a «Evangelium gaudium» ou a «Laudato sì», fizeram furor, pela veemência da expressão – quase violenta, para a sensibilidade de alguns –, os leitores ficavam surpreendidos ao reparar que se tratava de citações da Escritura e, muitas vezes, de palavras textuais de Cristo. O próprio Papa explicou que o fazia para mostrar que não estava a instituir novidades, apenas a propor a genuína mensagem cristã.

Quem esperava que esta nova Exortação abrisse caminhos fáceis, vai encontrar estradas santas, verdadeiras, um mapa direito para chegar ao Céu. Desilusão? Pelo contrário! A surpresa de que Deus nos ama e torna possível o que pareceria difícil ou impossível. A mensagem do Papa é clara: não são conselhos tristes, é a alegria do amor (amoris laetitia). Do amor verdadeiro e puro, que leva a Deus.

Por vezes, a vida complicou-se. Um gesto impensado, sem medir as consequências, e criou-se uma situação difícil de resolver. Onde está a justiça? Parece que está num lado e também no seu oposto. Onde está a felicidade? A razão aponta numa direcção, mas a pessoa vê o sol a brilhar na outra ponta. O Papa Francisco tem qualquer coisa a dizer sobre o assunto, da parte de Deus. A justiça e a felicidade estão do mesmo lado e Deus também. A questão é ganhar a coragem de se pôr a caminho e confiar em Deus. Mesmo nas situações mais difíceis, Francisco repete o estribilho: há um itinerário que é preciso decidir-se a percorrer (por exemplo, «Amoris laetitia», 300).

Isto faz lembrar um conselho de Jesus que parece deliberadamente errado: «não apagueis a torcida que fumega!». Todos sabem que quando o pavio de uma vela só deita fumo, não há nada a fazer. O Papa tem outra opinião, acha que Cristo tem um sopro especial. Em vez de apertar nos dedos a torcida que fumega, para que deixe de incomodar, Deus aplica-lhe um sopro novo, que faz brotar labaredas.

O povo terá razão, quando diz que não há fumo sem fogo? Mesmo num fiozinho de fumo, já frio?
José Maria C.S. André

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