JESUS MORREU?

Jesus morreu. Mas os primeiros cristãos não entenderam a Sua morte como morte. E, na Liturgia Pascal, a Igreja até garante que Jesus «destruiu a morte». Como notou Santo Agostinho, Cristo «matou a morte com a Sua morte». Ao morrer, «matou em Si a morte»!

É certo que Ele foi dado como morto (cf. Jo 19, 33) e sepultado (cf. Mc 15, 46). Espantoso é o significado teológico atribuído a este facto biológico. Os evangelistas não dizem abertamente que Jesus morreu. Marcos (15, 37) e Lucas (23, 46) referem que Jesus «expirou» («exépneusen»). Embora seja considerado sinônimo de «falecer», o sentido imediato de «expirar» é «expelir ar».

Uma das palavras que os gregos usavam para descrever o «ar» era «pneuma». Esta traduz-se habitualmente por «espírito». Olhando para a fórmula verbal «exépneusen», depreendemos que Jesus «deixou sair o pneuma». Ou seja, o «espírito».

Esta percepção sai reforçada em Lucas. Com efeito, antes de «expirar» — isto é, antes de «deixar sair o espírito» —, Jesus anuncia ser isso mesmo o que vai fazer: «Pai, nas Tuas mãos, entrego o Meu Espírito».

Tudo, entretanto, se explicita em Mateus (27, 50) e João (19, 30). Para Mateus, Jesus «deixou ir o espírito» («aphêken tò pneuma»). Segundo João, Jesus «entregou o Espírito» («parédôken tò Pneuma»).

De que modo? «Inclinando a cabeça». Ora, inclinar a cabeça é próprio não só de quem morre, mas também de quem adormece. E a Igreja acredita ter nascido não «do lado morto», mas, como recorda o Concílio, do «lado adormecido» de Cristo.

Ninguém Lhe tira a vida; é Ele que dá a vida (cf. Jo 10, 18). Dando o Espírito, dá a vida (cf. Jo 6, 63). Melitão de Sardes, no século II, coloca-nos na pista certa. Jesus, «com o Seu Espírito, que não podia morrer, matou a morte homicida». É por isso que a Sua morte é uma morte «morticida», uma morte que mata a morte. Não elimina a vida; ilumina a vida.

Está concluída (cf. Jo 19, 30) a redenção, mas não a vida do Redentor. Até da morada dos mortos Ele ressurge vivo. Na sepultura não encontra um lugar de aniquilamento, mas de repouso. Tal como Deus repousa após a obra da criação (cf. Gén 2, 2), também o Filho de Deus repousa após a obra da redenção.

10. Dá a impressão de que Jesus não morreu; viveu a morte. É por isso que, para Santo Agostinho, como para tantos outros, Jesus nasce para morrer. Isto é, para viver a nossa morte. É que, «se não tomasse da nossa natureza a carne mortal, não tinha possibilidade de morrer por nós». Ou seja, não tinha possibilidade de «dar vida aos mortais». Tudo somado, mais do que morrer, Jesus participa da nossa morte. Porquê? Porque, «participando da nossa morte, torna-nos participantes da Sua vida». Enfim, Jesus muda tudo. Ele vai ao ponto de nos «vitalizar» na própria morte!

11. A vida de Jesus não é interrompida. É transfigurada pelo Espírito que nos entrega «da parte do Pai» (Jo 15, 26). É no Espírito que Jesus vive eternamente. É no Espírito que também nós viveremos para sempre!

Frei Francisco Bezerra do Nascimento, OFMConv.


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