JÁ ERA MANHÃ NO EXTERIOR, MAS CONTINUAVA NOITE NO INTERIOR

Maria Madalena — como os outros discípulos — ainda não tinha entendido o significado daquela morte. Ainda não tinha dado conta de que aquela morte não interrompera aquela vida. Ainda não tinha percebido que aquela morte destruíra a própria morte (cf. 2Tim 1, 10). Ainda não conseguira compreender cabalmente o que significava a necessidade de o grão de trigo ter de morrer para dar fruto (cf. Jo 12, 24).

Para Maria Madalena — como para os restantes discípulos —, continuava a ser noite. Ela ainda não notara que o dia já tinha começado. Parafraseando o Livro do Cântico dos Cânticos, dir-se-ia que era ainda pela noite que Madalena ia à procura do amado da sua alma (cf. Ct 3, 1). Ia, no entanto, à procura de um morto. Com muito pesar da sua parte, estava persuadida de que a morte tinha triunfado.

Dá a impressão de que a comunidade tinha esquecido que quem tem fé, mesmo que morra, não deixará de viver (cf. Jo 11, 25). Mas quem não esquece esta verdade? Quem não vacila na fé? Madalena fica alarmada e vem, a correr, partilhar o seu alarmismo (cf. Jo 20, 2). Não é isso o que nos acontece hoje? Não estamos sempre predispostos a embarcar em todos os alarmismos? Não são as notícias negativas mais divulgadas que as notícias positivas?


Os outros discípulos — certamente também alarmados — vão igualmente a correr para se inteirarem, «in loco», do que se passa. Naquele momento, não ocorreu a ninguém que aquele túmulo não estava vazio, mas aberto. Vazios pareciam estar eles: vazios de fé, vazios de ânimo, vazios de esperança. Ainda era noite no seu íntimo. Para eles, a pedra retirada do túmulo (cf. Jo 20 1) era sinal de roubo, não de ressurreição. No fundo, a pedra retirada do túmulo acentuava a vulnerabilidade a que a morte expõe as pessoas. Punha-as à mercê do que quisessem fazer com elas.


Frei Francisco Bezerra do Nascimento, OFMConv.

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