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HOMILIA: CELEBRAÇÃO DA PAIXÃO DO SENHOR

São Leão Magno
Tratado sobre a Paixão do Senhor, 59
 “A cruz de Cristo, fonte de todas as bênçãos e origem de todas as graças”

Entregue o Senhor à vontade de seus inimigos, foi obrigado a levar o instrumento de seu suplício para zombar-se de sua dignidade real. Assim se cumpriu o que predisse o profeta Isaías, quando diz: Um menino nos nasceu, um filho nos foi dado: ele traz aos ombros o principado. Pois que o Senhor saísse levando o lenho da cruz – esse lenho que havia de converter-se em cetro de sua soberania – era certamente aos olhos dos ímpios objeto de enorme humilhação, mas que aos olhos dos fieis aparecia como um grande mistério. Pois este gloriosíssimo vencedor do diabo e vigoroso conquistador dos poderes adversos levava de forma misteriosa o troféu de seu triunfo, e carregava sobre os ombros de sua invicta paciência o símbolo da salvação, digno de ser adorado por todos os reinos. Dir-se-ia que naquele momento, com o espetáculo de seu comportamento, queria confirmar e dizer a todos seus imitadores: Quem não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim.
Quando, acompanhado da multidão, Jesus se dirigia ao lugar de suplício, encontraram certo Simão de Cirene, a quem impuseram a cruz do Senhor, para que também neste gesto ficasse prefigurada a fé dos pagãos, e para quem a cruz de Cristo não seria objeto de confusão, mas de glória. Por esta entrega da cruz, a expiação operada pelo cordeiro imaculado e a plenitude de todos os sacramentos passará da circuncisão para a incircuncisão, dos filhos carnais para os espirituais. Pois a verdade é que – como diz o Apóstolo – Cristo, nossa Páscoa, foi imolado; o qual, oferecendo-se ao Pai como novo e verdadeiro sacrifício de reconciliação, foi crucificado: não no templo, cuja missão sagrada tinha chegado ao fim, nem dentro do recinto da cidade, destinada à destruição em merecimento aos seus crimes, mas fora das muralhas, para que, tendo cessado o mistério das antigas vítimas, uma nova vítima fosse apresentada sobre o novo altar, e a cruz de Cristo fosse o altar não do templo, mas do mundo.
Amadíssimos, tendo sido levantado Cristo na cruz, nossa alma não deve contemplar tão somente aquela imagem que impressionou vivamente a visão dos ímpios, e aos quais Moisés se dirigia com estas palavras: Tua vida estará diante de ti como por um fio, tremerás dia e noite, e nem de tua vida te sentirás seguro. Estes homens não foram capazes de ver no Senhor crucificado outra coisa do que sua ação culpável, cheios de temor, e não de temor com o qual se justifica a fé verdadeira, mas o temor que atormenta a má consciência.
Que nossa alma, iluminada pelo Espírito da verdade, receba com coração livre e puro a glória da cruz que se irradia pelo céu e terra, e trate de penetrar interiormente no que o Senhor quis significar quando, falando da sua Paixão que estava próxima, disse: Chegou a hora que será glorificado o Filho do homem. E mais adiante: Minha alma está angustiada, e que direi: Pai, livra-me desta hora? Mas para isto eu vim a esta hora. Pai, glorifica o teu Filho. E como ouvisse a voz do Pai que descia do céu: Já te glorifiquei e te glorificarei novamente, disse Jesus aos que o rodeavam: Esta voz não veio por mim, mas por vós. Agora o mundo vai ser julgado; agora o príncipe deste mundo vai ser lançado fora. E quando eu for elevado da terra, atrairei todos a mim.



Fonte: Lecionário Patrístico Dominical, pp. 78-79.

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