A MORTE COMO «ADORMECIMENTO»

«Senhor, aquele de quem és amigo está doente» (Jo 11, 3). Eis o que foi dito a Jesus há dois mil anos. Eis o que pode — e deve — ser dito a Jesus hoje. Tantos são os que estão doentes. Tantos são aqueles a quem só Jesus pode curar. Não tenhamos medo de recorrer a Jesus. Jesus está sempre disponível para vir em nosso auxílio. Quando sabe que o amigo está doente, Jesus altera os planos e muda de caminho (cf. Jo 11, 7) apesar da hostilidade dos judeus (cf. Jo 11, 7). Sabendo também da nossa doença existencial, Jesus está sempre disponível para nos curar.

Como é sabido, Jesus não vai logo para casa de Lázaro. Permanece ainda dois dias no local onde estava (cf. Jo 11, 6). Lázaro está doente, mas a sua doença não é de morte; é para que nela se manifeste a glória de Deus (cf. Jo 11, 4). Aquela morte é vista sobretudo como uma oportunidade para reforçar a fé na Ressurreição (cf. Jo 11, 15).

Afinal, é preciso morrer para ressuscitar: só ressuscita quem morre. É por isso que Jesus, apesar de saber que Lázaro tinha morrido (cf. Jo 11, 14), fala da sua morte como um adormecimento: «O nosso amigo Lázaro está a dormir; mas Eu vou lá para o acordar» (Jo 11, 11). É curioso notar como a interpretação que Jesus dá à morte de Lázaro é muito semelhante à interpretação que os primeiros cristãos dão à morte do próprio Jesus. Também a morte de Jesus é vista como um adormecimento. São João diz que, antes de «entregar o Espírito», Jesus «inclinou a cabeça» (Jo 19, 30).

Ora, inclinar a cabeça é a posição não só de quem morre, mas também de quem dorme. Aliás, há uma máxima muito antiga segundo a qual a Igreja nasce do lado «adormecido» — não «morto» — de Cristo na Cruz. Na morte de uma pessoa santa, costumamos dizer que «adormeceu no Senhor». E, já agora, convirá recordar que a palavra «cemitério» significa não «lugar onde se morre», mas «lugar onde se dorme».


Frei Francisco Bezerra do Nascimento, OFMConv.

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