O PROTAGONISTA QUE NÃO CONSEGUIU SER HERÓI

Com que legitimidade se julga alguém pelo que fez debaixo de chantagens ou sob o fogo cruzado de coações e ameaças? Se é cruel ter de agir sem vontade, torna-se sumamente penoso ser acusado pelo que se faz contra a vontade.

O drama do Padre Cristóvão Ferreira, no Japão do século XVII, passa essencialmente por aqui. Violentamente compelido a apostatar, viu-se cercado entre a perda de confiança dos seus e uma persistente desconfiança dos outros.

Os primeiros censuravam o seu afastamento, os segundos suspeitavam que não se tivesse afastado totalmente. Cristóvão Ferreira nunca terá deixado de ser cristão. E há quem pense que morreu como mártir no mesmo local onde, anteriormente, suspendera o martírio.

A tragédia do Padre Sebastião Rodrigues, o protagonista (que não chegou a herói) do livro de Shusaku Endo e do filme de Martin Scorsese, é semelhante. A determinação de «expiar a apostasia de Ferreira» não evita que também ele naufrague na apostasia de Ferreira.

A hesitação inicial foi estigmatizada como sintoma de fraqueza.
E nem a cedência final terá sido sinalizada como grandeza.

A fidelidade a Cristo era depreciada como um simples «medo de trair a Igreja». Mas nem a posterior mudança atraiu qualquer reconhecimento. Aos olhos dos que o pressionaram, Rodrigues limitou-se a «encobrir a sua fraqueza».

A sua atitude foi ditada por ponderosas razões humanitárias. Mas será que aqueles — tantos — que não recuaram eram portadores de menor humanismo? A não-condenação do comportamento de Rodrigues impedirá que valorizemos a opção de quantos não retrocederam?

Era menos humanista o Padre Sebastião Vieira (natural de Castro Daire) que, em 1634, foi imolado pelo fogo? Teria menos humanismo São Paulo Miki, o primeiro padre japonês, que, em 1597, avançou para o martírio num grupo onde havia várias crianças?

Será que tinham um menor apreço pela vida humana? Ou não será que, para eles, a vida está emoldurada por um forte sentido de eternidade? A alegria que irradiavam na iminência do martírio era o certificado de que, a seus olhos, nem a morte interrompe a vida.

Os que enfrentam a «grande tribulação» (Ap 7, 14) não levam a vida a esbarrar na morte.
Pelo contrário, conseguem transformar a própria morte em nascentes de (mais) vida!


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