DOMINGO II DA QUARESMA - ANO A - 12 DE MARÇO DE 2017

     
 1 – Antes da Páscoa, a Paixão; antes da saciedade o caminho; antes da ressurreição, a morte; no meio das trevas, a LUZ que vem do alto. Quando recebemos uma má notícia, que nos envolve, dizemos que levamos um murro no estômago, deixamos de ver, de ouvir, parece que fica tudo escuro, tudo vazio, que o mundo acabou naquele momento. Se um olhar nos encontrar e descobrir uma brecha no nosso coração, um olhar, um gesto, um abraço, uma palavra, o silêncio que perscruta, talvez não desapareçamos!
       É neste contexto que surge a Transfiguração de Jesus diante dos Apóstolos mais próximos, Pedro, Tiago e João (e talvez Judas). Jesus tinha-lhes revelado que ia ser preso e morto. Ao mesmo tempo lhes revelou que ressuscitaria três dias depois. Mas os discípulos já não escutaram essa parte. Ficou difícil compreender. Recordamo-nos da censura feita por Pedro a Jesus: livra-te de tal... Pedro extravasa um certo desencanto: como é que o Messias, que vem para restaurar Israel, vai ser morto? Não pode ser!
       Depois do deserto, a sós conosco e com Deus, a liturgia da palavra eleva-nos ao monte, faz-nos olhar para o alto, para Deus. No deserto, Jesus sublinha que o alimento vem de Deus e, por conseguinte, não devemos ser reféns nem do alimento, nem do poder, nem do prestígio, mas o que temos e o que somos deve ajudar-nos a construir um mundo mais justo e fraterno, onde reine Deus e o Seu amor, a Sua justiça misericordiosa. No monte, com Jesus, vislumbramos o que vai além da morte, um lampejo de esperança, de promessa a cumprir.
       A Quaresma é caminho para a Páscoa. Porém, nos tons, nos apelos, nas vivências, tudo aponta para a morte de Jesus, para aquela via-sacra, aquele caminho que leva a um desfecho cruento, prisão, bordoadas, injúrias, cuspidelas, julgamento apressado, crucifixão e morte. Penitência, jejum, oração, abstinência, sobriedade, sacrifício. Mas estes só têm sentido depois da Páscoa de Jesus, há 2 mil anos, porque vislumbramos no caminho a meta que nos conduz à ressurreição e vida nova.
       Os apóstolos, os mais próximos, têm também este vislumbre. É como um pedaço de pão para enganar a fome enquanto não são horas da refeição. Como dizia o Papa Francisco, na primeira Carta Encíclica Lumen Fidei, "A fé não é luz que dissipa todas as nossas trevas, mas lâmpada que guia os nossos passos na noite, e isto basta para o caminho". No contexto da vida pública de Jesus, a transfiguração é esse rasgo de luz que ajuda a prosseguir a caminhada.

 2 – Finda a jornada do deserto, Jesus prossegue o Seu caminho, fazendo-nos entrar na Terra Prometida, sendo que Ele próprio é a Promessa que se cumpre no tempo e na história. Depois da Transfiguração é tempo de descer do monte e regressar à cidade, à vida, às rotinas do dia-a-dia, ao quotidiano, com as suas esperanças e alegrias, com as suas lutas e tristezas.
       No monte, Pedro, Tiago e João puderem ver e ouvir, e nós com eles, o Céu, a vida iluminada pela Luz vinda do Pai. Não caminhamos sozinhos. Não descemos sozinhos. Ele desce conosco. Desceu da eternidade e agora desce do monte. Levou-nos com Ele, mostrou-nos um pouco do Céu, e agora acompanha-nos de regresso a nossa casa, de regresso à nossa vida, a este mundo que temos para transformar. O recado do Céu, o recado de Deus: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O».
       Por vezes não é fácil perceber a voz de Deus. Como discípulos ficamos atónitos, à espera de mais sinais, à espera de outras explicações. Mas a mensagem remete-nos para Jesus que nos retira do transe: «Levantai-vos e não temais». Uma e outra vez, ouvimos Jesus a chamar-nos, a levantar-nos, a sossegar-nos, para logo nos enviar a todo o mundo, a anunciar o Evangelho, a curar os doentes, a expulsar os demónios. O que de graça recebemos, de graça devemos dar.
       A Sua voz ressoa no nosso coração. A vida pode não ser fácil, mas Ele está conosco. A Sua ressurreição é a certeza inabalável que ficará sempre do nosso lado. Quando nos assaltarem as dúvidas, rezemos ao Pai, supliquemos, abramos-Lhe o coração: "Deus de infinita bondade, que nos mandais ouvir o vosso amado Filho, fortalecei-nos com o alimento interior da vossa palavra, de modo que, purificado o nosso olhar espiritual, possamos alegrar-nos um dia na visão da vossa glória".

       3 – Também Abraão, chamado por Deus, se põe a caminho. Deus desafia. Não impõe. Não Se impõe. Propõe-nos uma vida mais sublime, mais perfeita! Por Ele? Sim, por Ele porque nos ama e quem ama quer o bem da pessoa amada, sempre, em todas as circunstâncias ou não seria amar. Por nós (porque nos ama), para que tenhamos vida e vida em abundância (cf. Jo 10, 10).
       Para Deus não bastam os mínimos, mas o melhor de cada um. Abraão, num primeiro momento, deve ter ficado perturbado com o chamamento e envio do Senhor: «Deixa a tua terra, a tua família e a casa de teu pai e vai para a terra que Eu te indicar. Farei de ti uma grande nação e te abençoarei; engrandecerei o teu nome e serás uma bênção. Abençoarei a quem te abençoar, amaldiçoarei a quem te amaldiçoar; por ti serão abençoadas todas as nações da terra».
       Não é coisa pouca deixar a casa, os pais, a família, a pátria, a segurança do passado, os amigos. Só não custa partir a quem não deixa nada para trás, a quem não tem laços, a quem vive no vazio. Claro que custa menos partir quando é necessário, para melhorar a vida, a própria e a daqueles que se amam. "Abraão partiu, como o Senhor lhe tinha ordenado". É possível que nem tenha olhado para trás. Para não chorar! E segue em frente, certo das dificuldades que irá encontrar, mas confiante na mão que o conduz, confiante na Palavra de Deus. Tem uma vida toda pela frente. Como Pai na fé será reconhecido como arameu errante, peregrino em terra estrangeira. A terra em que passa a viver é a que Deus lhe indica, é Terra Prometida. Há uma nação a construir, na qual serão abençoados todos os povos da terra. Como se verá ao longo da história da salvação o chamamento de Deus é sacramental, isto é, não se destina a premiar os chamados, mas a transformá-los em instrumento de bênção e de salvação para os outros, para todos.

       4 – A Quaresma é um pouco de tudo isto. Caminho para a Páscoa, marcado pela conversão, pela preparação, pela renúncia ao superficial, mas também à pele que se vai formando e que é preciso renovar, substituir, para que seja Cristo a revestir-nos da alegria de quem vive para amar e para servir.
       Na Sua mensagem para esta Quaresma, o nosso Bispo, D. António Couto, desafia-nos: "Despojemo-nos, não apenas do que nos sobra, mas também do que nos faz falta. Dar o que sobra não tem a marca de Deus. Jesus não nos deu coisas, algumas coisas para o efeito retiradas da algibeira, mas deu por nós a Sua vida inteira. Dar-nos uns aos outros e dar com alegria deve ser, para os discípulos de Jesus, a forma, não excecional, mas normal, quotidiana, de viver".
       O despojamento, a partilha solidária, a renúncia, mudar a agulha para o bem e para a bênção. Abraão, sublinhemo-lo novamente, não é chamado pelos seus belos olhos, é chamado por Deus para ser instrumento de bênção para todas as nações da terra. A Quaresma não visa premiar o sacrifício, o esforço, a renúncia. Não é para que fiquemos mais fortes, mais magros, mais aptos a enfrentar o sofrimento. O caminho da Quaresma abre-nos à festa da Páscoa, da Ressurreição, da Vida nova, como vislumbramos na Transfiguração de Jesus. Neste caminho podemos assumir diversos gestos, mas o importante é a conversão do coração, a proximidade a Deus, o essencial são os laços que se criam com os outros, a amizade e a família, o serviço e o perdão, a reconciliação com vida, a luta e o empenho pela justiça e pela verdade, o combate contra todas as manifestações do mal.
       É uma Quaresma que nos faz espreitar a Páscoa, solene e anual, que celebramos em cada domingo, em cada Eucaristia, mas já vislumbre da Páscoa eterna. Não há que temer o que deixamos, há que valorizar o que vem pela frente. Balançamo-nos para o amanhã, com Deus e com os outros, confiantes que muitas graças estão no nosso caminho. Ele não nos promete o "paraíso" terrestre, histórico, promete-nos a Sua vida, a Sua presença, o Seu amor, até à eternidade.

       5 – O Apóstolo São Paulo testemunha a fidelidade ao Evangelho de Jesus Cristo, com as dificuldades e os sofrimentos inerentes a essa opção de vida. Anima o discípulo Timóteo à mesma firmeza diante das perseguições e injúrias a que estão sujeitos, mas na certeza inabalável que a força e a graça de Deus os não abandonará. "Sofre comigo pelo Evangelho, apoiado na força de Deus. Ele salvou-nos e chamou-nos à santidade, não em virtude das nossas obras, mas do seu próprio desígnio e da sua graça. Esta graça, que nos foi dada em Cristo Jesus, desde toda a eternidade, manifestou-se agora pelo aparecimento de Cristo Jesus, nosso Salvador, que destruiu a morte e fez brilhar a vida e a imortalidade, por meio do Evangelho".
       As lutas e tristezas, a angústia do tempo presente em nada se compara com a alegria na eternidade. Porém, estas dores são como as da Mulher que está para ser mãe, são dores fortes, incômodas, chatas, porém, o aproximar do nascimento do filho fá-la caminhar, persistir, resistir, até que o momento chegue e expluda em luz, alegria e paz. É o tempo da Quaresma em relação à solenidade da Páscoa; é a nossa vida comprometida com o mundo atual até à Páscoa eterna.

Frei Francisco Bezerra do Nascimento, OFMConv.


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