«CRISTIFORMES» OU (apenas) «MUNDIFORMES»?

A nossa vida sofre de uma entorse e está afetada por um impasse. Passamos os dias a pedir que se realize a vontade divina (cf. Mt 6, 10). E, no entanto, gastamos o tempo a seguir as nossas determinações humanas.

Da fórmula deliberativa do Concílio de Jerusalém — «pareceu bem ao Espírito Santo e a nós» (Act 15, 28) — dá a impressão de que apenas retemos a segunda parte. Ou seja, limitamo-nos ao que «parece bem» a nós.

Sucede que é o próprio espírito do tempo a reclamar uma atenção cada vez maior ao tempo do Espírito. Sem ele, teremos um Cristianismo ateologal, de feição neopelagiana e atormentado por um novo arianismo.

Há, com efeito, um neopelagianismo que nos impele a confiar unicamente nos nossos critérios e a contar sobretudo com as nossas forças. Basta reparar no afrouxamento na Oração ou no abandono da Confissão. Este clima é indissociável de um novo arianismo que liga Jesus à nossa humanidade, desligando-O, porém, da Sua divindade.

Tudo nasce de uma perda do sentido da transcendência. Para muitos, a transcendência não é mais do que o humano sublimado. A relação com Deus vai-se diluindo na difusa conexão com uma «divindade» fabricada pelo homem. Ou com uma «deidade» que não passa de mera dimensão do humano.

Não espanta que a nossa espiritualidade esteja tão debilitada e que a nossa sensibilidade ao mistério seja tão reduzida. Também não admira o défice de silêncio, a falta de aprumo e o excesso de informalidade que contaminam muitas das nossas celebrações. Que espaço deixamos em nós para o que vai além de nós?

É preciso perceber que o «aonde da transcendência» (Karl Rahner) não cristaliza nas nossas formas. Daí que evangelizar não seja ocupar o tempo, mas transformar a vida. A nossa vida não há-de ter a nossa forma. Ela há-de ter sempre a forma da Igreja, a forma de Cristo, a forma de Deus.

O Cristianismo nunca pode ser «egoforme», «grupoforme» ou «mundiforme».
Dos percursos formativos hão-de emergir cristãos com um perfil claramente «eclesioforme», «cristiforme» e «deiforme». «O homem é o caminho» (São João Paulo II), mas só Deus é o centro. Centrar o homem no homem nem sequer ajuda o homem. Só Deus nos realiza inteiramente!


Frei Francisco Bezerra do Nascimento, OFMConv.


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