A ORAÇÃO DA GRANDE QUARESMA : SANTO EFRAIM O SÍRIO.

“Ó Senhor e Mestre da minha vida, afasta de mim o espírito de preguiça, o espírito de desânimo, o desejo de poder e a vâ loquacidade.
Mas concede a mim, Teu servo, o espírito da castidade, da humildade, da paciência e do amor.
Sim, Senhor e Rei, concede-me que eu veja as minhas faltas e não julgue meus irmãos. Pois tu és bendito pelos séculos dos séculos.
Amém.
Ó Deus, purifica a mim, um pecador ”

Em alguns momentos do serviço divino recitamos esta oração. 
Ela foi escrita pelo venerado Santo Efrém da Síria (306-373) e, portanto é chamada de
 “ a Oração de Santo Efraim, o Sírio. ”

Contudo, em razão do seu conteúdo e importância,  esta oração é também  conhecida como a oração quaresmal. 

E isso não se dá apenas porque ele é lida  durante a Grande Quaresma, mas também porque, entre outras orações lidas nas celebrações e em casa durante o cumprimento do Grande Jejum, ela incentiva o fiel a conhecer a base de todos os seus pecados. 

A sabedoria compassiva da Santa Igreja  determina que a leitura da oração penitencial de Santo Efrem deve ser lida, tanto no templo quanto em casa apenas entre a Segunda e a Sexta Feira, pois na sequencia de cada uma das partes da leitura, o fiel se prostra em grande prostração, e nos Sábados (preparação para o Domingo)e Domingos, não nos ajoelhamos em nossas orações.

Mas qual é a razão para  essa pequena oração venha a ocupar uma posição tão importante na Grande Quaresma ?  

Todos os homens enfrentam diariamente a exposição dos seus próprios pecados, e tal realidade exige um esforço especial de nossa parte, através do arrependimento e da libertação dos mesmos, a fim de melhorarmos a nossa vida espiritual. 

Não é suficiente para um cristão durante  o jejum apenas desenvolver uma  luta física, mas sim e fundamentalmente, a sua batalha deve ser espiritual, pois o sentido do jejum não consiste  em buscar "torturar" o corpo, mas sim o aliviar das paixões corporais e dos maus hábitos decorrentes dessas paixões, e o alívio se dá pela confrontação de uma série  de transtornos emocionais pela via de uma orientação de nossa vida no caminho do Senhor. 

Vamos  então desenvolver um roteiro para melhor compreender o sentido, a utilidade desta oração :
Primeiro nos pedimos a Deus que nos livre da preguiça. 
A preguiça é dos vícios mais perigosos e é um pecado  que atormente quase  todas as pessoas. Além da preguiça, a oração trata do desanimo. Estes são elementos que enfraquecem todo o nosso ser. Tais moléstias  nos "convencem” da impossibilidade de mudar as coisas negativas, em nós e no mundo. 

Da preguiça advêm o desanimo, que também está  profundamente enraizado na alma humana e este  espírito nos faz responder a  cada chamado com um indolente “e daí?’” 
Tomados por tal espírito, muitas vezes rejeitamos os poderes espirituais dados por Deus. 

Portanto, ao tratar da preguiça  Santo Efrém a define  como um obstáculo fundamental na vida, tanto física quanto espiritual, e nos insta a pedir a Deus para nos aliviar dela, já que tal pecado não apenas  retarda o fluxo das coisas em nossa vida cotidiana, mas atrapalham o nosso desenvolvimento espiritual.

O desanimo conduz ao desespero . Homem vencido  pelo desespero  não consegue ver nada de bom ou positivo, mas tudo se resume ao negativismo e ao pessimismo, que o leva  a depressão.  Este é o trabalho do mentiroso , do diabo. Ele mente para o homem, o engana para o afastar da esperança em Deus. O desespero é o suicídio da alma. 

O homem desesperado é incapaz de perceber o que há de bom no mundo e assim também poder alegrar-se com sua beleza advinda da misericórdia de Deus. 
Então, tomado por tal desanimo,  perde o desejo não só para a viver a vida, com seus desafios e alegrias, mas também de buscar o seu  desenvolvimento espiritual.
Na sequência a oração trata da ganância, do  desejo excessivo de poder. 

Pessoas tomadas por tal desejo de poder buscam subjugar os outros. 
Seu objetivo é  o poder pelo poder, para assim ser o senhor de pessoas e coisas, e guiado por tal paixão não limita seus esforços para conquistar a meta desejada. 

 Nossa vida não foi nos  dada por Deus? Como agora podemos nos tornar de tal modo auto-centrados que só venhamos a buscar trabalhar para conquistar o poder sobre todas as coisas e sobre outras pessoas?  Tal desejo, gana por poder, essa tal  vontade de vencer e de submeter a todos, altera radicalmente a atitude da alma. 

Isso faz com que a indiferença, o desprezo  e a falta de atenção pelo próximo, se torne algo cotidiano e nem mesmo seja notado como um pecado.

Então Santo Efrem também trata da vã loquacidade, a tagarelice,

De todos os seres vivos na terra, só  o homem tem o dom de falar. 

Os Santos Padres vêem nesse dom o "selo" à imagem de Deus no homem, pois o próprio Deus aparece como o Verbo (João 1, 1).

 Mas este dom, apesar de tanta grandeza correlacionada a ele, é simultaneamente a maior ameaça para o homem. E Por quê? 
Porque muitas vezes a capacidade de falar em vez de conduzir à melhoria e adoração a  Deus, nos leva à auto destruição pelo pecado. 

É verdade que a palavra salva, mas também mata, pois ela pode trabalhar em favor da Justiça no mundo , mas também pode servir a propagação de mentiras e blasfêmias . Assim, quando a palavra se afasta de seu propósito divino, torna-se vazia, sem conteúdo. Essa palavra destituída de graça  confirma os males causados pelo espírito de preguiça, desanimo e busca pelo poder, e nos vincula ao  diabo e ao inferno.
A tagarelice nos leva a fofoca e ao falso testemunho,  violando os relacionamentos humanos, e nosso relacionamento com Deus, porque o nono mandamento determina : "Não dirás falso testemunho contra o teu próximo". 

É por isso que a Santa Igreja através desta oração durante a Quaresma, clama pela  libertação do homem a partir desses pecados básicos, mas que são os mais perigosos. A eliminação deles nos conduz  à perfeição, do mesmo modo que a submissão ao seu jugo nos conduz  à ruína eterna. Os únicos meios e formas de libertação de tais pecados estão na  oração e no arrependimento.
Através da oração e  do arrependimento, pedimos a Deus para nos fortalecer em nossa luta espiritual com a adesão as quatro virtudes da seguinte forma:
Em primeiro lugar, pedimos  a Deus que nos conceda um espírito de castidade. 

A castidade é uma característica da sabedoria espiritual. 
Porque o desejo pelo desenvolvimento espiritual só pode advir dos pensamentos saudáveis do  homem. Ainda hoje as pessoas têm diferentes visões do mundo e da vida.
 Alguns dizem que o mundo criou  a si mesmo e que o homem com toda a sua perfeição, é uma obra furtiva  da natureza. Algumas pessoas acreditam em deuses diferentes, e outros, têm distorcido os ensinamentos sobre a fé em um único Deus. 
No entanto, a Santa Igreja ensina que o mundo inteiro, o universo e tudo nele é uma obra da providência de Deus.
As confusões existes sobre a verdade  está intimamente relacionada com o olhar das pessoas para o mundo. Pois para alguns, a vida na Terra é apenas para uso pessoal, para atenção aos prazeres corporais. Para  outros, o sentido da vida é o acumulo de  riquezas,  outros  vêem o sentido na conquista do poder. Em todos esses, vai predominar a crença, confessada ou não, sobre um tópico : vida termina com a morte física. 
Para nós, cristãos, Deus é o doador da vida. Ela é um dom de Deus. 
Depois da morte física, ou seja, após o Temível Tribunal de Cristo, seguirá a vida eterna. 
A nossa vida após a morte, a existência na eternidade, vai depender da vida que vivemos aqui na terra,  se vamos optar pelo bem ou pelo mal. 

Os justos vão ser recompensados eternamente  no paraíso , enquanto os pecadores vão para a danação eterna, o inferno.

Ao compreender a vida por este prisma, a castidade se consiste a vida em busca da correção, tendo como parâmetro a vida futura. 
O primeiro fruto da castidade, desta busca por viver uma vida correta (ela é um dom nos dado por Deus) é a humildade. 

Ela é uma vitória da justiça em nós mesmos e a rejeição de toda e qualquer mentira. 
Pois as pessoas humildes vivem com justiça, pois vêem  e aceitam todas as coisas como elas são, e em tudo identificam a majestade de Deus que é todo bondade e amor. 

Os humildes  são  aqueles que tem conhecimento de seus pecados e choram por eles .
 A humildade torna o homem manso e misericordioso. 
O homem humilde é indiferente a tudo o que não se relaciona com a busca pela  perfeição espiritual. Deus auxilia os  humildes , dando-lhes  graça para resistir ao orgulho.
Como fruto da castidade e da humildade temos a paciência. 

Ao abandonar a sua natureza humana original, o homem tornou-se impaciente a tal ponto que não pode mais  reconhecer a miséria contida em si mesmo e em razão disso vive a condenar os outros. 

O julgamento espiritual do homem decaído não é guiado pela justiça de Deus, mas sim de acordo com a injustiça humana, poluído  por suas “luzes próprias” , por sua opinião.

A paciência é uma  virtude de Deus. O Senhor é paciente não por causa da sua condescendência para com as pessoas, mas devido à  profundidade do Seu amor por nós, os seres humanos, e por Sua compreensão a respeito de todas as coisas que as nossas mente não podem vislumbrar nem minimamente. 
Quanto mais nos aproximamos de Deus, mais nos tornamos pacientes.

Finalmente, o fruto de todas as virtudes, de nossa luta espiritual, é a aquisição do amor. 
E o amor só pode nos ser dado por Deus. E tal dom só é dado aos espiritualmente preparados. 
E o objetivo fundamental de  cada cristão e adquirir esse  amor de Deus, especialmente agora, durante a Grande Quaresma.
Tudo isso é tratado na  última petição da oração em que  clamamos ao  Senhor, para que  Ele nos dê a capacidade e a força para realizar superar nossos erros e não para julgar o nosso irmão. 
Se vamos conseguir alcançar tal  estado espiritual ou não, só depende de nós mesmos. 
Esta é  a nossa tarefa diária , o dever e o propósito de nossas vidas.  Nosso Senhor Jesus Cristo nos ensinou a respeito disso, quando colocou em  primeiro lugar  nas Bem Aventuranças :"Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus" (Mateus 5, 1). 

Pobres de espírito são justamente as pessoas que  adquirem a consciência  de seus pecados e choram sobre a sua condição pecaminosa.
O Senhor então promete a eles o  maior dos  prêmios  : o Reino dos Céus.  
O que pode então nos impedir, para alem da preguiça, do desanimo, do desejo de poder e da vã loquacidade ? Temos o orgulho como resposta.

O começo de todo pecado e mal  tem sua fonte no orgulho. 
A incapacidade de perceber os próprios erros, a auto indulgencia é derivada basicamente do  orgulho. Portanto, os Santos Padres sempre sugerem o máximo cuidado e evitar a falsa piedade que, sendo  destituída de humildade  só fazem , pelo nosso orgulho, alegrar ao diabo.

Contudo, quando o homem percebe seus pecados e  fraquezas espirituais, ele automaticamente deixa de  julgar o  próximo, porque sabe então que todos nós pecamos e todos nós somos pecadores. Pode um pecador  condenar outro pecador? Certamente que não.
 Se chegamos a essa conclusão, e ainda compreendemos que  é necessário viver na  castidade, humildade, paciência e amor, vamos estar o suficientemente fortes para combater o nosso principal inimigo (o orgulho) e assim o  diabo será derrotado.
Nas três súplicas desta oração está contida toda a lei moral da Igreja. 
E é por isso que esta oração é tão importante para nós, cristãos, especialmente agora, durante a Quaresma. 


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