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SERÁ QUE DEUS NOS ABANDONA?

Quantas vezes já não passaram pela nossa cabeça — e pelos nossos lábios — as palavras de Sião reproduzidas por Isaías: «O Senhor abandonou-me, o Senhor esqueceu-me» (Is 49, 14)! Até Jesus terá experimentado o abandono de Deus. Quem não tem presente o (lancinante) grito da Cruz: «Meu Deus, Meu Deus, porque Me abandonaste?» cf. Mc 15, 34. 37; Mt 27, 46. 50).

Nós, seres humanos, sentimo-nos, quase sempre, representados por este grito de Cristo. Quem já não fez as perguntas que, em 2006, o Papa Bento XVI fez no Campo de Concentração de Auschwitz: «Senhor, porque é que Te silenciaste? Porque é que toleraste tudo isto?»

É preciso, porém, perceber que o grito de abandono de Cristo na Cruz ocorre numa paradoxal situação de profunda união com Deus. O Filho que Se confessa abandonado é o mesmo que Se disponibiliza para ser entregue (cf. Mc 14, 41). Se quem vê o Filho vê o Pai (cf. Jo 14, 6), então quem vê o sofrimento do Filho não pode deixar de entrever o sofrimento do próprio Pai.


Parafraseando Santo Ireneu de Lyon, dir-se-ia que a realidade invisível que se vê no sofrimento do Filho é o sofrimento do Pai e a realidade visível em que se vê o sofrimento do Pai é o sofrimento do Filho. O grito de abandono desponta, por conseguinte, como um alerta para a presença silenciosa, mas não passiva, de Deus no sofrimento.

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