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DEUS É IMPASSÍVEL, MAS NÃO INCOMPASSÍVEL

O silêncio de Deus não é mutismo nem indiferença; é uma forma sofrida de presença. Deus não precisa de ruidar para falar. Como notou Kierkegard, Deus fala mesmo quando (Se) cala. Deus fala sobretudo por gestos, por atitudes. Deus fala sobretudo pelo amor, pela doação, pela entrega.

No fundo, na Cruz, Cristo assume-Se como representante de todos os abandonados do mundo. O que Se confessa abandonado é, pois, o rosto — e a voz — de todos os que se sentem afastados. A dor que estes sentem só é aceitável «com Jesus e perto de Jesus que a sofreu por todos nós e conosco» (Joseph Ratzinger). A todos Deus quer dizer que, afinal, não estão abandonados porque Ele lhes entregou o Seu Filho como o Irmão de todos eles.

Como bem notou São Bernardo, «Deus é impassível, mas não incompassível». Ou seja, Deus não estando sujeito ao padecer, não é incapaz de Se compadecer. Acresce que este compadecimento não é mais leve que o padecimento. Ao sofrer por nós e conosco, Deus sofre verdadeiramente e até mais intensamente. Hans Urs von Balthasar sublinhou que «Deus “sofre” conosco e bem mais do que nós; e não deixará de sofrer enquanto houver sofrimento no mundo».


Deus não sofre por debilidade da Sua natureza, mas pela força do Seu amor. Dir-se-ia que o amor leva Deus a ir mais longe que a Sua própria natureza. Em Deus, o poder é sempre amoroso e o amor é sempre poderoso. O amor consegue tudo e, como notou Dostoiévski, «salva tudo». Daí que, na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, não estejamos perante uma força frágil, mas perante uma fragilidade forte (cf. 2Cor 12, 9).

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