Homilia: IV Domingo do Tempo Comum - Ano A

 São Cromácio de Aquileia
Sermão 41 sobre as Bem-aventuranças
“Os oito degraus do Evangelho”

Bem-aventurados sereis quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem de vós todo tipo de mal por causa da justiça. Alegrai-vos e exultai, porque é grande a vossa recompensa nos céus. Assim perseguiram aos profetas que vieram antes de vós. É virtude perfeita, irmãos, após as obras de grande justiça, serem ultrajados pela verdade, serem afligidos com tormentos e, ao fim, feridos de morte sem deixar-vos aterrorizar, seguindo o exemplo dos profetas que, atormentados de muitas formas por causa da justiça, mereceram ser assimilados aos sofrimentos e galardão de Cristo.
Este é o mais alto degrau, no qual Paulo, contemplando a Cristo, dizia: minha única meta é, esquecendo as coisas passadas, e fixando-me somente nas que virão, correr até a meta, para ganhar o prêmio ao qual Deus chama desde o alto por Jesus Cristo. E a Timóteo diz ainda mais claramente: combati o bom combate, terminei minha carreira. E como quem subiu todos os degraus, acrescenta: guardei a fé. Já me está preparada a coroa da justiça. Terminada a carreira, a Paulo não lhe restava mais que alcançar, glorioso, através de tribulações e dos sofrimentos, o mais alto degrau do martírio. A Palavra do Senhor nos exorta pois, oportunamente: alegrai-vos e exultai, porque grande é a vossa recompensa nos céus; e Ele demonstra com clareza que esta recompensa aumenta na medida das perseguições.
Irmãos, diante de vossos olhos estão estes oito degraus do Evangelho, construídos, como dizia, com pedras preciosas. Eis aqui essa escada de Jacó que começava na terra e cujo cume atingia o céu. Aquele que sobe encontra a porta do céu e, tendo entrado por ela, estará com alegria sem fim na presença do Senhor, louvando-lhe eternamente com os santos anjos. Este é o nosso comércio, este é o nosso mercado espiritual. Demos, benditos de Deus, o que temos; ofereçamos a pobreza de espírito para receber a riqueza do Reino dos Céus que nos foi prometida; ofereçamos nossa mansidão, para possuir a terra e o paraíso; choremos os nosso pecados e os alheios, para merecer o consolo da bondade do Senhor; tenhamos fome e sede de justiça, para sermos saciados mais abundantemente; ofereçamos misericórdia, para receber verdadeira misericórdia; vivamos como benfeitores da paz, para sermos chamados filhos de Deus; ofertemos um coração puro e um corpo casto, para ver a Deus com consciência límpida; não temamos as perseguições por causa da justiça, para sermos herdeiros do Reino dos Céus, acolhamos com alegria e gozo os insultos, os tormentos, a própria morte – se chegasse a sobrevir – pela verdade de Deus, a fim de receber no céu uma grande recompensa com os apóstolos e os profetas.
E para que o final de meu discurso concorde com o princípio: se os comerciantes de alegram pelas frágeis ambições do momento, quanto mais temos de alegrar-nos e felicitar-nos todos juntos por ter encontrado hoje estas pérolas do Senhor, com as quais não se pode comparar nenhum bem deste mundo! Para merecer comprá-las, obtê-las e possuí-las, temos de pedir o auxílio, a graça e a fortaleza do Senhor.
A Ele seja a glória pelos séculos dos séculos. Amém.


Fonte: Lecionário Patrístico Dominical, pp. 126-127.

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